Jornal Rosa Choque
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Cuiabá - MT, 22-10-2021 às 19:26

Amini Haddad é empossada na Academia Mato-grossense de Direito

Mais um espaço de poder ocupado por uma mulher. A juíza Amini Haddad toma posse na presidência da Academia Mato-Grossense de Direito.

Amini Haddad empossada não AMD | Creditos: Divulgação

Integra do discurso da juíza de Direito Amini Haddad, ao tomar posse na Academia Mato-grossense de Direito- AMD. O então presidente Marcelo Antônio Theodoro fez a transmissão do cargo, em evento híbrido no Restaurante Mahalo, dua 29 de setembro. Sueli Batista, presidente da Academia Mato-Grossense de Letras-AML prestigiou a solenidade.

Há exatos 47 anos, minha trajetória de vida começou. Melhor, antes disso, no ventre da minha mãe, quando meus pais disseram sim para essa magnífica experiência que é a família. Certamente, essa foi a mais importante vitória: alcançar a vida... o nascimento. A partir desse marco, iniciamos outros trajetos que passam a nos identificar como personalidades, como indivíduos, pessoas responsáveis por parte de um acréscimo histórico ao mundo.

Tropeços, descobertas, derrotas, vitórias, novos recomeços, horizontes descobertos. A cada dia, a vida se revela diante de nós. Nem sempre, porém, percebemos sua magnitude. Por vezes, os obstáculos categorizam sombras aos olhos e penumbra ao coração.

Mas, aprender-reaprender é algo inerente à vida e enquanto não fecharmos os olhos e termos encerrada a nossa trajetória pela realidade da morte, estaremos diante dessa adversidade de um tempo que desconhecemos. Não sabemos quando os nossos relógios temporais nos surpreenderão com a partida.

Por isso, momentos de alegria, regozijo, realização, vitórias e compartilhamentos devem ser desfrutados, como se fossem os únicos, os últimos, a exemplo das cortinas que encerram uma cena... não no teatro, mas sim, na realidade da vida. 

Este momento, em sua unidade existencial trouxe à memória, exemplos de grandes mulheres. E fiquei a meditar qual seria o último pensamento de cada uma delas quando dos segundos que antecederam o evento morte. A força delas é por não terem encerrado suas existências antes do fatídico dia da despedida. Desafiaram a imposição do silêncio, da invisibilidade, do isolamento e da desventura que redigia um espaço desqualificado às suasexistências.

Veio-me o exemplo feminino, que percebi aos meus 12 anos. Anne Frank. Sim, uma jovem judia vítima do nazismo que, entre os anos de 1942 a 1945, diante do terror, escreveu um Diário que traz o cruel e amargo testemunho da perseguição nazista aos judeus, descrevendo as entranhas do totalitarismo. Ela, ainda adolescente, nos oferta uma história rica em detalhes e nos mostra uma diferente forma de alcançar vitória, mesmo após a morte.

A sua vida, ainda que curta, foi mais simbólica do que muitas vidas que se aproximam do centenário. Anne Frank me fez chorar muitas vezes. A última, foi quando, na Holanda, em Amsterdã, visitei sua residência e adentrei nos ambientes estreitos, onde os personagens da vida real se escondiam, até visualizei o armário apertado em espaço, mas gigante em significação.

Anne Frank pode ter falecido fisicamente, aos 15 anos, em 1945. Mas, não tenho qualquer dúvida de que a sua existência permanece viva. O Diário publicado não somente nos informa da existência interrompida, mas nos oferta uma visão dos verdadeiros abismos que devemos temer.

Ela tem razão ao dizer... “Olhe como uma única vela tanto pode desafiar como definir a escuridão.”

Isso foi muito bem retratado por Hannah Arendt. Para mim, uma das maiores filósofas de todos os tempos, contabilizada entre homens e mulheres. Com Arendt, entendi que a escravidão começa muito antes da clausura.

Veio-me também o exemplo de Clarice Lispector, Ucraniana que veio para o Brasil em 1922. Ela se formou em Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro, então identificada como Universidade do Brasil. Fiquei encantada com a sua inteligência e coragem na produção de “Laços de Família” e a “Hora da Estrela”, certamente, ela me influenciou pelo olhar aguçado e uma irreverente fórmula de descaracterizar o óbvio, a exemplo de sua afirmação:

- “até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”

Ela era sábia... como bem discorre a sua famosa afirmação: “Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.” Com ela, a minha disposição crítica amadureceu e, hoje, sei o que ela quis afirmar ao descrever que a palavra é uma forma de domínio sobre o mundo.

Já com Coco Chanel aprendi a me deleitar criatividade expressada não somente na voz e na escrita, mas na expressão do corpo, das cores e dos cortes que emolduram o físico. Ela revolucionou o espaço feminino e inaugurou a maior marca de todos os tempos, categorizada no seu próprio nome. 

Viveu entre séculos. Nasceu no final do século XIX e cruzou grande parte do século XX, vindo a falecer em 1971. Apesar de seu nascimento em realidade paupérrima, não desistiu de sua existência. Trabalhou em uma loja de tecido, onde pulsou seu talento na costura, o que a habilitou a abrir uma chapelaria, em 1910, inaugurando um tempo novo ao mundo da moda. 

Sua coragem em enfrentar a estreiteza das permissões ao feminino fez possível o império Chanel. Entre moldes físicos, ela criou o Chanel n. 5. 

Minha essência favorita.

Mas, Chanel é intangível. Ela era objetiva e sutil, para uma época em que mulher e cárcereeram palavras sinônimas. Ela não se intimidava com a tentativa de controle e, em tom desafiador, inaugurava a versão... bem... “você só vive uma vez. Por isso divirta-se.” 

Já Cora Coralina, adoçou muito a vida da comunidade como doceira, até nos presentear com os seus poemas e contos. Ela cursou até a terceira série do primário, e traz a realidade dos talentos e da nobreza que jamais devem ser esquecidos, mesmo diante da dureza da vida.

Ela, aos 70 anos, aprendeu datilografia e, aos 75 anos, escreveu o primeiro livro. De doceira a escritora, ela certamente viveu a integridade de suas verdades, ao afirmar... “nós estamos matriculados na escola da vida, onde o mestre é o tempo” e que “a verdadeira coragem é ir atrás” dos sonhos, mesmo quando todos dizem que ele é impossível, pois foi “com as pedras” que lhe atiraram que construiu “uma bela obra”.

Outra grande mulher com quem aprendi a categorizar os meus passos foi Margaret Thatcher. A primeira mulher a liderar um dos principais partidos da Inglaterra. Em 1979, foi a primeira mulher eleita ao Cargo de Primeiro-Ministro do Reino Unido. Foi reeleita, em 1982, com grande margem. Já em 1987, foi reeleitacom uma margem menor de votos. Ela revelou muito ao dizer que, às vezes, é necessário “travar uma batalha mais de uma vez, para vencê-la.” 

Mas, a expressão mais simbólica veio quando ela teve a coragem de instigar mulheres e alfinetar os homens com a afirmação...“qualquer mulher que entenda os problemas de cuidar de uma casa está muito perto de entender como cuidar de um país.” Irreverente e desafiadora, ela não tinha receio ao afirmar: “Não foi sorte, eu mereci”.

Ela se parecia muito com a minha avó, de quem herdei o nome, Amini Haddad. Essa aparência não era exclusivamente física.Inteligente e perspicaz, a minha avó me ensinou as partes mais difíceis da existência.

Com ela, aprendi a ser resistente e nunca acreditar que algo é impossível. Ela me desafiou todos os dias, até vir a falecer aos quase 92 anos de idade.

Já com a minha mãe, Misudy, aprendi que amar também é decisão. E que, por vezes, o sentimento é desafiado, mas a responsabilidade é chamada à clareza do sol, para que meditemos sobre os nossos atos sempre imbuídos de sua razão primeira. E sei o quanto ela renunciou ao cuidar do meu pai doente, de mim e do meu irmão. A sua nobreza ao desistir de si quando foi necessário, traz-me a verdadeira perspectiva do que é ser nobre.

Eis-me aqui. Caríssimos confrades e confreiras. Vocês ouviram uma pequena e singela parte da minha existência. Mas, aqui, quero registrar a presença dos senhores e senhoras. Quanta honra é somar a minha voz a tantas vozes na dimensão de tão simbólicoshorizontes da nossa Academia Matogrossense de Direito. 

Aos parceiros deste sonho alcançado, na qualidade de fundadores desta instituição, meus sinceros cumprimentos. Suas vozes ecoam na projeção do infinito. Somadas ultrapassam fronteiras. Desdobramentos que nunca encerram a missão verdadeira que compete a cada um de nós.

Agradeço a Deus, pela oportunidade de todos os dias e por cada horizonte alcançado. À minha família, entrego a melhor parte. São eles que tornam os meus dias mais ensolarados e o brilho do meu olhar mais intenso. Gratidão, meu amado Joelson, grande homem e pai. Gratidão, Natálie e Tales Mateus... por cada passo dessa caminhada. A minha família de origem, agradeço por todos os aprendizados sustentados, na pessoa do meu querido irmão aqui presente, Jamilson Haddad.

À minha eterna Professora Desa. Shelma Lombardi de Kato, trago o registro do signo que imprimiu aos meus passos, desde o primeiro contato que tive com o seu olhar, seus conhecimentos, integridade e história junto à Universidade Federal de Mato Grosso.

À Desembargadora Maria Erotides Kneip, exemplo de magistrada para mim, registro minha gratidão por todos os incentivos que fez despertar novas aspirações na minha alma.

Encerro relembrando o olhar da Juíza Afegã Samita. Eu a conheci em Londres, na Conferência da IAWJ. Não sei se ainda está viva. Espero que sim. Espero reencontra-la.Isso instiga ainda mais esta trajetória da minha existência e missão.

Gratidão a todas e todos. Que a data de hoje seja um tempo para relembrar a única razão de estarmos aqui: servir à humanidade.

Amini Haddad Campos


 

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