Jornal Rosa Choque
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Cuiabá - MT, 24-09-2021 às 17:40

Mais uma voz feminina na Academia Mato-Grossense de Letras

Tendo na bagagem os títulos de doutora em Literatura, de mestre em Letras, e várias obras, inclusive selecionada e premiada, Marli Walker conquista a imortalidade

Marli Walker será empossada dia 14 de setembro como a nova imortal da AML | Creditos: Divulgação

Uma admirável mulher talvez tenha feito uma festa no céu, no dia 7 de agosto de 2021. A intelectual Marília Beatriz de Figueiredo Leite, com seu largo sorriso poderia ter sido uma das pessoas que comemoraram o resultado alcançado pela professora, poeta e escritora, Marli Walker, na eleição da Cadeira 2, da Academia Mato-Grossense de Letras-AML. A vaga foi aberta após a “Sessão magna de saudade”, em homenagem a sua ultima ocupante. Suposições a parte, a verdade é que era seu desejo não contido, ver a eleita, ocupar uma das cadeiras da AML, só que obviamente nem passava pela sua cabeça que seria a ocupada por ela. A posse ocorrerá na noite  de 14 de setembro de 2021.

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 “Temos que ter essa moça com a gente”, teria dito na última vez que visitou a Casa Barão, sede da instituição, num encontro com a presidente Sueli Batista, há menos de dois meses da sua partida, em 3 de julho de 2020, por Covid 19. “Eu conhecia pouco de Marli Walker, não tinha nenhuma relação pessoal com ela e nem seu número de telefone na agenda”.

A presidente conhecia Marli pela sua história e nunca haviam sido apresentadas. Ela já havia mantido contato com Sueli quando pleiteou a Cadeira 36, na eleição que ocorreu no dia 14 de julho de 2018, e não foi a vencedora. Sueli Batista sentiu, entretanto, que deveria contar para a escritora o que ouviu de Marília, pediu então o seu contato para a acadêmica Marta Cocco. O telefonema reacendeu a vontade de Marli de novamente concorrer, sendo eleita em primeiro turno, com expressiva votação. No mesmo dia, coincidentemente, ocorreu a eleição para a Cadeira 26, que foi ocupada por Ernani Calháo.

Foi com alegria e emoção que Marli recebeu a comissão designada pela presidente Sueli Batista, sendo que as acadêmicas Marta Cocco, Lucinda Persona e Cristina Campos, lhe fizeram o comunicado oficial do resultado da sua eleição para a Cadeira 2. Ela recordou que as semanas que antecederam a feliz notícia, foram de apreensão e expectativa. “Sentia-me isolada no quadro de candidatos, pois concorria com cinco homens, dentre os quais talentosos escritores e personalidades ligadas ao Direito. Aliás, se pensarmos nas duas cadeiras, tivemos um quadro com onze candidatos homens para apenas uma candidata mulher. Creio que isso diz muito sobre nossa sociedade”, evidenciou, apontando que o seu conforto, entretanto, vinha  da ideia de que a cadeira 02 fora ocupada por uma mulher extraordinária, referindo-se a poeta, intelectual e ativista cultural, Marília Beatriz, conhecida e querida de todos, que foi levada intempestivamente pelo coronavírus.

Marli confidenciou que pensava que seria importante uma mulher dar continuidade ao trabalho que Marília desempenhou tão bem, candidatando-se a mesma cadeira. Acreditava, ainda, que a sua produção intelectual e literária poderia contribuir com o avanço da AML rumo ao projeto que ela tem em mente:  o envolvimento da comunidade, do público jovem, dos leitores sedentos de um contato mais estreito com escritores e intelectuais. “Feliz que tenha dado certo e possa, enfim, sonhar em colocar em prática os projetos que venho acalentando há algum tempo. Acredito na democratização da arte e do saber como caminho para a emancipação do ser. Empenharei minha energia, criatividade e conhecimento para alcançar esse objetivo, com o desejo de que acadêmicas e acadêmicos também sensíveis a essa concepção abracem o projeto comigo”.

Sueli Batista acredita que, como acadêmica, Marli Walker trará para a AML novas perspectivas em formas de projetos e do que será possível realizar junto ao corpo acadêmico. “Por toda sua trajetória ela educa e mostra-se uma talentosa tecelã das palavras, que nos fios de várias matizes traz uma considerável produção intelectual, que toca mentes, almas e corações, numa narrativa que transmite o que vem muitas vezes de seu inspirador movimento intimista, sempre materializado por excelentes escritos, que não a faz sobreviver, por outro lado, lhe dá imenso prazer”. A presidente diz parecer certo, que a chegada da novel acadêmica agregará muito em amizade e ricos compartilhamentos.

O Portal Rosa Choque ouviu todas as mulheres pertencentes a bancada acadêmica da AML, elas não só felicitaram e deram boas vindas para Marli Walker, como também deixaram suas palavras sobre a importância do seu ingresso na instituição. Nilza Queiroz Freire citou que a eleita foi fundamental para a busca do equilíbrio de gênero na instituição. Ela que foi a primeira presidente da Academia, em mais de oitenta anos de sua fundação, destacou: “ainda somos minoria e Marli vem a somar para que tenhamos mais voz”, recordou que a ultima ocupante da Cadeira 2 era mulher, o que tinha diminuído a participação feminina na AML com o seu falecimento.

Marta Cocco destacou que “a eleição da Marli simboliza o reconhecimento da potência da escrita feminina, a representatividade da região Norte - nortão- de Mato Grosso que é abordada em suas obras, e o desejo de Marília Beatriz e nosso de termos uma grande escritora fazendo parte da Casa!”.

Lucinda Persona também comemora, destacando que Marli “vem retemperar as energias e sonhos da Casa das Letras. Vem especialmente somar ao trabalho em favor da literatura e da linguagem. Sua trajetória profissional e sua produção literária atestam em direção ao diálogo com a razão e a sensibilidade, com os ideais e objetivos culturais da Academia”, frisou, dizendo ainda que a eleita chega com o talento, o engenho, os conhecimentos e experiências de quem vive da palavra e para a palavra, refletindo poderosamente a essência do lugar que cultiva as letras. “Sua vitória é profundamente significativa, pondo em destaque não somente a força e atuação crescente da mulher no cenário cultural, como também representando uma voz fértil no resgate da memória e da escrita da mulher”, frisou. 

Para a acadêmica Amini Haddad Marli escreve como uma resistente personalidade que não se intimida pelas mudanças do solo em seus pés. Apontou que a história da eleita é delineada pela experiência “entre estados”, “entre cidades e regiões”, o que certamente lhe enriqueceu o olhar e o refletir. “Com ela, inaugura-se uma construção literária altamente qualificada, que reveza fórmulas “ácidas e lúdicas”, para compor realidades, sem qualquer perda de intensidade poética. Ao ler suas produções, a exemplo de Jardim de Ossos (2020), de Coração Madeira (2020) e de Mulheres Silenciadas e vozes esquecidas (2021), sem prejuízo de outros (poemas Pó de serra, 2006/2017; Águas de encantação, 2009; Apesar do amor, 2016 - este contemplado pelo edital do MEC/2018 e pela Prefeitura de São Paulo, 2019), conseguimos quase tocar as palavras que saem do papel já contornando realidades e reescrevendo outras fontes, a partir do ‘feminino descoberto’. Faz-se visível um novo mundo. Até mesmo o das baratas, que perpassam simbolismos no seu texto. Ao mesmo tempo, compartilha realidades, por vezes, místicas e primitivas, em dores emudecidas. O Universo feminino conhece bem essa frase. Marli a descreve na dureza banhada de poesia. Ao mesmo tempo, retoma ‘aquilo que impuseram esquecido’. Ela, corajosamente, desafia vários espaços temporais”, completou.

Amini disse também que a escrita de Marli é aguçada pela experiência das vozes da floresta e do corpo que gera e aponta que certamente, todas essas emanações, ganharão contornos distintos na AML, onde a sua produção ecoará, legitimando as nobrezas femininas em suas próprias existências. A acadêmica completou que a produção da nova acadêmca acalenta a sua alma, para algo que ela tem em comum com a escritora...”eis que, com a sua presença, amplia-se uma verdade: as vivências das mulheres não mais serão esquecidas”, finalizou.

“Fiquei feliz com o ingresso de Marli Walker na AML, pois, além de boa escritora, é uma educadora carismática que certamente atuará no sentido de aproximar professores e alunos da instituição”, disse Cristina Campos. Ela apontou que a eleita partilhará  com os \cadêmicos,  o sonho de que a Casa Barão, se torne efetivamente um ponto de cultura, aberto e atuante. Ela também cita que com a eleição da escritora, “realizou-se o desejo da amiga Marília Beatriz de tê-la conosco, a quem Marli hoje sucede na Cadeira 2”.l

Olga Mendes, disse que ter a premiada escritora Marly Walker na Academia Mato-Grossense de Letras/AML é garantir a premissa maior que o lugar de produzir pensamentos se engrandece. Segundo ela, o conjunto da obra de Marly atesta que o cenário das letras extrapola a sala de aula em que labuta diariamente. “Inquieta e de madura percepção do mundo, a novel acadêmica representa os novos sentidos de Mato Grosso, aquele surgido do movimento migratório do ver/sentir as diferenças e os processos multiculturais de grande representação nas artes contemporâneas”.

O legado com o qual Marli chega na AML também foi ressaltado por Olga, que na sua opinão chega para somar sua trajetória à de outros nomes consagrados pela memória cultural e histórica da Academia Mato-Grossense de Letras através da Cadeira nº 2, anteriormente ocupada por Gervásio Leite e Marília Beatriz de Figueiredo Leite, de memoráveis presenças. “Marly fala pela poesia de Pó de serra (2006 e 2017); Águas de encantação (2009), Apesar do amor (2016) e fala, também, pela forma maviosa e cruel da narrativa romanesca de Coração madeira (2020). Então, não há palavras que a representam, pois todas elas estão na poesia das histórias que canta e conta”, enfatizou.

Luciene Carvalho disse que Marli Walker foi eleita em 07/08/2021, porém ela, já era da Academia Mato-Grossense de Letras como uma destinação:  “a professora  dialoga literatura com as novas gerações, a crítica literária nutre um olhar devolutivo inspirador sobre as nossas letras e a escritora - ah , a escritora! - cresce em desvelo e criação. Ela é Marli Walker , da Academia”, sintetizou.

Yasmin Nadaf conheceu Marli Walker inicialmente como uma competente professora de Literatura na Unemat de Sinop; e autora do livro de poesia Pó de serra (Sinop-Cáceres/MT:Unemat, 2006). “Dotada de uma fineza muito peculiar sua postura me chamou atenção num rápido encontro na Unemat de Sinop onde estive para um evento acadêmico. Dividindo o mesmo espaço das letras vieram outros encontros até uma convivência mais profunda quando ela elegeu para objeto do seu doutoramento o estudo das escritoras de Mato Grosso, desde os primórdios do século XIX”, lembrou, destacando que como especialista nessa área de estudos,  Marli a procurou para pesquisas em seu acervo e entrevistas sobre algumas escritoras.

“Foram dias de muita satisfação para mim. Ver um trabalho acadêmico incipiente como o que eu fizera ter continuidade com profundeza é o que todo e qualquer pesquisador sonha ver. Com personalidade marcante e muita assiduidade, características inerentes a Marli, pude compartilhar, como era o esperado, da banca que a consagrou Doutora em Letras pela Universidade de Brasília (UnB), com a tese Entre vários amores: três séculos de poesia feminina em Mato Grosso, na data de em 17 de dezembro de 2013. A tese se tornou livro com o título Mulheres silenciadas e vozes esquecidas. Três séculos de poesia feminina em Mato Grosso. (Cuiabá: Carlini & Caniato Editorial, 2021), para deleite dos que acompanham os estudos de gênero e a inserção da mulher nos meios literários e culturais”, pontou, citando outras obras da autora. Outra lembrança de Yasmin é que no entremeio a intelectual entrou para o GT “Mulher e Literatura” da Anpoll (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Lingüística), que como o próprio nome indica realiza estudos sobre a Mulher e a escrita. Um Grupo onde ela teve a honra de estar representando a região centro-oeste por 25 anos, e que hoje está sendo representado pela Marli.  “Inevitável seria, deste modo, a realização de seu sonho de compartilhar de uma das 40 Cadeiras da Academia Mato-Grossense de Letras”, concluiu.

Lindinalva Rodrigues diz que para a Academia Mato-Grossense de Letras é uma alegria e uma honra ter em seu quadro de membros vitalícios uma escritora da envergadura de Marli Walker, eleita para ocupar a Cadeira 02, em substituição à saudosa Marília Beatriz, que em vida externou diversas vezes o seu desejo sincero de ver Marli eleita para a AML.”Com uma carreira repleta de êxitos, consigno que no ano de 2016, sua obra: “Apesar do amor”, foi selecionada pelo Ministério da Educação para constar no PNLD – Plano Nacional do Livro Didático/2018, orgulho nacional para as letras e sobretudo, para todas as mulheres escritoras de Mato Grosso”.

Neila Barreto destacou fatos da vida de Marli Walker, que nasceu em Santa Catarina, de onde saiu aos dezoito anos para o sertão de Mato Grosso, região em que viveu por mais de vinte anos. Hoje reside na capital. “Ao que consta, Marli, depois de formada, trouxe para Cuiabá, também, os costumes das mulheres catarinenses e os incorporou no seio cuiabano, novas ideias, mais participação, novas tendências tornando o caminho das mulheres cuiabanas menos árduo, ganhando visibilidade na sociedade cuiabana e uma maior participação na vida pública e no mundo das letras. Mulher! Mulheres.

A historiadora citou também a capacidade de Marli transformar e amoldar o espaço onde vive, e destacou que isso têm sido um de seus traços ou, uma de suas marcas ao longo da história. “E Marli, já sabia (e como sabia), que uma das características do gênero  feminino seria essa, a de silenciosamente transformar o que lhe chega... inclusive, a vida humana em todas as suas dimensões e formas. 

Elizabeth Madureira lançou também sua visão de historiadora para falar de Marli Walker  destacando a sua vivência nas terras catarinenses e a sua  migração para o interior de Mato Grosso, onde viveu por duas décadas, e, há alguns anos atrás, em Sinop antes de fixar residência em Cuiabá, “Seu invejável currículo já traçava promissor percurso: Graduada em Letras, Mestre em Estudos de Linguagem e Doutorado em Literatura. Atualmente é professora pesquisadora - Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade do Estado de Mato Grosso-Unemat e atua também como docente e pesquisadora junto ao Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia de Mato Grosso (IFMT)”. Ressaltou também a relevância das suas obras.  

A historiadora citou que Marli esteve sempre presente nos eventos da Academia Mato-Grossense de Letras, numa demonstração de carinho e respeito para com a centenária Instituição. “Tornou-se mais conhecida, seja pela sua produção, ou pela pessoa especial e comunicativa que é. O conjunto dos membros da Academia Mato-Grossense de Letras se sente honrado em recebê-la em seus quadros, pelo valor e reconhecimento de seu processo criativo, em versos ou prosa, revelador de uma escrita contemporânea que demonstra seu comprometimento com a realidade regional, onde viveu a maior parte de seus anos”, finalizou.

Com relação a escrita, Marli ainda não sabe dizer se a imortalidade altera o seu processo, mas ela diz esperar que sim. Ela está trabalhando num novo romance, tarefa que julga árdua, solitária e demorada. Informou que um novo livro de poesia está sendo escrito, e talvez seja lançado no ano que vem. “Que a palavra permaneça e se faça imortal!”, realçou.

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