Jornal Rosa Choque
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Cuiabá - MT, 15-06-2021 às 22:45

Trans e travestis no mercado de trabalho

Saiba qual a importância das empresas treinarem suas equipes para lidar com identidades de gênero

Estigmas ligados à transexualidade no Brasil ainda são expressivamente altos dentro do cenário social, tal qual colocou o país no 68º lugar do ranking de países mais seguros para a população LGBTQIA+ | Creditos: Divulgação | Creditos: Divulgação

Por Mika Mattos e Beatriz

A discussão acerca da identidade de gênero se torna uma das principais motivações de um movimento que tem como propósito trazer conhecimento e visibilidade à pauta que permeia a vida de pessoas transsexuais e travestis - parte da comunidade LGBTQIA+ que mais morre em decorrência de transfobia de acordo com um Dossiê dos Assassinatos e da Violência Contra Pessoas Trans Brasileiras, divulgado em 2020 pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Você já parou para pensar se essas pessoas estão inseridas no mercado de trabalho, ou se as empresas preparam seus funcionários de uma forma adequada para receber pessoas trans e travestis?

Provando que são capazes de ir além do que o imaginário social propõe e impõe, transsexuais e travestis como Lea T (Modelo), Laerte (Artista), Liniker (Cantora), Linn da Quebrada (Artista) e Valentina Saluzz (Diretora Executiva) - são de grande importância para a desmistificação de estereótipos nos tempos atuais. Além de terem influência na construção de um novo projeto de mundo, também são referências para uma geração, principalmente como profissionais.

Para Valentina, que dirige a agência de comunicação Nexxt, em Paris, não é só necessário capacitar pessoas cisgêneras para lidarem com vidas trans, mas também é de fundamental importância que se dê a atenção necessária em capacitar pessoas trans para se inserirem adequadamente no mercado de trabalho, só assim elas realmente terão mais oportunidades e possibilidades.

"A importância de capacitar pessoas trans é a mesma para capacitar qualquer outra pessoa. Precisamos de médicos, juízes, engenheiros, cientistas... não há motivos para exclusão e transfobia. Já está mais do que na hora de ocuparmos espaços e cargos que nunca nos foram oferecidos antes”, salienta.

Vale ressaltar que devido ao longo contexto histórico de marginalização no qual transexuais e travestis foram submetidas, se firmar no mercado de trabalho se tornou um processo árduo e doloroso, devido aos inúmeros obstáculos enfrentados no decorrer de suas vidas, tendo que lidar desde cedo com a rejeição, principalmente no início de seus processos de transição. “Quando são expulsos de casa, não conseguem se dedicar aos estudos, e quando são aceitos no mercado de trabalho, não lhes é oferecido um plano de carreira, sendo essa falta de aceitação o motivo para que muitas acabem recorrendo a prostituição”, completa Saluzz.

A psicóloga Clara Sym (30), formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), ressaltou a importância de as empresas treinarem suas equipes para lidar com pessoas trans e com toda a diversidade das identidades de gênero. “Me parece importante questionar como a educação habitualmente escolarizada, ponto de partida para o futuro ingresso no mercado de trabalho, há tempos está voltada para a manutenção de uma lógica cultural individualista à serviço do ego, e comparativa em função da competição (que se propõe meritocrática, dentro da distorção que só confere mérito à quem se aliena das desigualdades que desumanizam vidas humanas). O que se forma aí são corpos desconectados de si e de suas experiências/potências singulares, em prol de reproduções normativas que pretendem garantir legitimidade de existência, e aceitação social”, ressalta Sym.

“O que se produz são subjetividades padronizadas, condicionadas às construções reducionistas a respeito do que seriam homens e mulheres ‘normais’ [...] É violenta a repressão das singularidades, alteridades e multiplicidades de ser. Diante dessas considerações, digo que a importância das empresas educarem suas equipes para receberem pessoas trans e toda diversidade extensa das identidades de gênero, tem a ver com ampliar a tomada de responsabilidade pelo compromisso com a construção de outras versões de mundo. Versões em que modos autênticos de expressão não sejam excluídos, deslegitimados, desqualificados ou assassinados (em todos esses casos violentados), mas sejam respeitados, desejados e celebrados, pelo direito de trabalhar partindo das competências envolvidas em ser quem se é e quem se quer ser”, conclui.  

Estigmas ligados à transexualidade no Brasil ainda são expressivamente altos dentro do cenário social, tal qual colocou o país no 68º lugar do ranking de países mais seguros para a população LGBTQIA+, como divulgado no ano de 2020 pela Antra. Sendo este, o lugar que mais mata travestis e transexuais no mundo.

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida das pessoas trans é de 35 anos - menos da metade da média nacional, que é de 75 anos. São questões como estas que levam a pauta sobre a pluralidade das identidades de gênero mais necessária do que se pode imaginar. Além das dificuldades de terem acesso básico à saúde, um dos principais fatores de adoecimento dessas pessoas é a transfobia, que impede a simples chegada de suas respectivas velhices.

trans é a mesma para capacitar qualquer outra pessoa. Precisamos de médicos, juízes, engenheiros, cientistas... não há motivos para exclusão e transfobia. Já está mais do que na hora de ocuparmos espaços e cargos que nunca nos foram oferecidos antes”, salienta.

Vale ressaltar que devido ao longo contexto histórico de marginalização no qual transexuais e travestis foram submetidas, se firmar no mercado de trabalho se tornou um processo árduo e doloroso, devido aos inúmeros obstáculos enfrentados no decorrer de suas vidas, tendo que lidar desde cedo com a rejeição, principalmente no início de seus processos de transição. “Quando são expulsos de casa, não conseguem se dedicar aos estudos, e quando são aceitos no mercado de trabalho, não lhes é oferecido um plano de carreira, sendo essa falta de aceitação o motivo para que muitas acabem recorrendo a prostituição”, completa Saluzz.

A psicóloga Clara Sym (30), formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), ressaltou a importância de as empresas treinarem suas equipes para lidar com pessoas trans e com toda a diversidade das identidades de gênero. “Me parece importante questionar como a educação habitualmente escolarizada, ponto de partida para o futuro ingresso no mercado de trabalho, há tempos está voltada para a manutenção de uma lógica cultural individualista à serviço do ego, e comparativa em função da competição (que se propõe meritocrática, dentro da distorção que só confere mérito à quem se aliena das desigualdades que desumanizam vidas humanas). O que se forma aí são corpos desconectados de si e de suas experiências/potências singulares, em prol de reproduções normativas que pretendem garantir legitimidade de existência, e aceitação social”, ressalta Sym.

“O que se produz são subjetividades padronizadas, condicionadas às construções reducionistas a respeito do que seriam homens e mulheres ‘normais’ [...] É violenta a repressão das singularidades, alteridades e multiplicidades de ser. Diante dessas considerações, digo que a importância das empresas educarem suas equipes para receberem pessoas trans e toda diversidade extensa das identidades de gênero, tem a ver com ampliar a tomada de responsabilidade pelo compromisso com a construção de outras versões de mundo. Versões em que modos autênticos de expressão não sejam excluídos, deslegitimados, desqualificados ou assassinados (em todos esses casos violentados), mas sejam respeitados, desejados e celebrados, pelo direito de trabalhar partindo das competências envolvidas em ser quem se é e quem se quer ser”, conclui.  

Estigmas ligados à transexualidade no Brasil ainda são expressivamente altos dentro do cenário social, tal qual colocou o país no 68º lugar do ranking de países mais seguros para a população LGBTQIA+, como divulgado no ano de 2020 pela Antra. Sendo este, o lugar que mais mata travestis e transexuais no mundo.

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida das pessoas trans é de 35 anos - menos da metade da média nacional, que é de 75 anos. São questões como estas que levam a pauta sobre a pluralidade das identidades de gênero mais necessária do que se pode imaginar. Além das dificuldades de terem acesso básico à saúde, um dos principais fatores de adoecimento dessas pessoas é a transfobia, que impede a simples chegada de suas respectivas velhices.

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