Jornal Rosa Choque
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Cuiabá - MT, 23-01-2021 às 10:50

Obra de Tarsila do Amaral bate recorde ao ser vendida por R$ 57.5 milhões

Realizado pela Bolsa de Arte, evento reafirmou status de Tarsila do Amaral, como pintora brasileira mais valorizada no mundo

 A caipirinha (óleo sobre tela, 60 cm x 81 cm) a obra de arte brasileira de valor milionário | Creditos: Divulgação

Durou cerca de 15 minutos a disputa por A Caipirinha, de Tarsila do Amaral. Após 19 lances, a obra foi vendida por 57,5 milhões de reais, estabelecendo um novo recorde para a arte brasileira. Este é o maior valor já pago por uma obra em venda pública no Brasil - o recorde anterior pertencia ao pintor Alberto da Veiga Guignard (1896-1962), cuja tela ‘Vaso de Flores’ foi arrematado em 2015 por R$ 5,7 milhões. Adquirida por um colecionador brasileiro, ‘A Caipirinha’ deverá permanecer no país.

Em 1923, em carta enviada à família, a paulista Tarsila do Amaral (1886-1973) dizia: “Quero, na arte, ser a caipirinha de São Bernardo, brincando com bonecas de mato, como no último quadro que estou pintando”. A artista se referia à fazenda onde cresceu e à pintura A caipirinha (óleo sobre tela, 60 cm x 81 cm), produzida naquele ano, um após a Semana de Arte Moderna.

"Nunca houve uma obra dessa relevância e deste valor sendo vendida no Brasil, por isso o leilão deve gerar uma grande expectativa. Até então, os dois recordes de vendas públicas no país eram de Superfície Modulada nº 4, de Lygia Clark, que alcançou R$ 5,3 milhões em 2013, e Vaso de flores, de Guignard, arrematada dois anos depois por R$ 5,7 milhões em valores da época", destaca Jones Bergamin, o Peninha, presidente da Bolsa de Arte.

Um dos nomes centrais da pintura brasileira do século 20, Tarsila garantiu sua posição no olimpo das artes visuais ainda em vida. Participou das bienais de São Paulo (1951,1952 e 1963) e Veneza (1964), a mais importante do mundo, e foi tema de duas grandes retrospectivas no Brasil - uma no MAM SP, em 1950, e outra (Tarsila, 50 anos de pintura, com curadoria de Aracy Amaral) dezenove anos depois, no MAM carioca e no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo. Mas foi só postumamente que suas obras atingiram cifras extraordinárias. 

O marco dessa escalada se deu em 1995, quando o empresário argentino Eduardo Costantini adquiriu o Abaporu (1928) por US$ 1,3 milhão (cerca de US$ 2,2 milhões em valores atuais) durante um leilão em Nova York. Presente de Tarsila para o marido e poeta Oswald de Andrade e ícone inaugural do Movimento Antropofágico idealizado por ambos, o trabalho passou a integrar a coleção do Malba - Museu de Arte Latina de Buenos Aires, fundado por Costantini em 2001, do qual se tornou a principal atração.

Em 2018, o MoMa - Museu de Arte Moderna de Nova York realizou a exposição retrospectiva Tarsila do Amaral: Inventing Modern Art in Brazil, com curadoria de Luis Pérez-Oramas e Stephanie D’Alessandro, que reuniu uma centena de trabalhos e foi a primeira no país dedicada à artista. No ano seguinte, o museu incorporou à sua coleção a obra A Lua (1928), por um valor que, especula-se, beirou os US$ 20 milhões (cerca de R$ 100 milhões). Ainda em 2019, foi a vez do MASP – Museu de Arte de São Paulo realizar Tarsila Popular, a mais ampla exposição já dedicada à artista no Brasil, com 92 obras, e recorde de público na história do museu, com 403 mil visitantes. Em novembro de 2020, a pintura Idílio (1929) esteve à venda na versão online da Tefaf  The European Fine Art Fair por US$ 7 milhões.

“Muitos desses eventos foram importantes para a valorização da obra da Tarsila, pois mostram que os estrangeiros olham para ela como uma artista fundamental na história da Arte Moderna no mundo. Ela está presente em alguns museus internacionais, como o Hermitage, em São Petersburgo (Rússia), o Reina Sofía, em Madrid, e o Musée de Grenoble, na França, além do próprio MoMa. Isso confirma que Tarsila não é importante somente aos olhos de colecionadores brasileiros; ela tem uma grande importância no cenário internacional”, defende Thiago Gomide, consultor do projeto. 

A Caipirinha de 47 milhões

Finalizada durante sua segunda viagem a Paris, na década vista por especialistas como a mais importante de sua trajetória, A Caipirinha evidencia a intenção crescente da artista, hoje considerada figura central do Modernismo, em transformar-se em uma “pintora de sua terra”, regularizando sua técnica cada vez mais em direção a uma arte que se propunha nacional. A convivência com grandes nomes do modernismo parisiense, como Blaise CendrarsConstantin BrancusiJean Cocteau e Fernand Léger, teve grande influência sobre sua produção, abrindo os caminhos para que essa arte nacional se assumisse também moderna.   

“Sou profundamente brasileira e vou estudar o gosto e a arte dos nossos caipiras. Espero, no interior, aprender com os que ainda não foram corrompidos pelas academias”, declarou Tarsila em sua volta ao país, quando passou a explorar as cores e temas do Brasil profundo.

A Caipirinha pode ser considerada um dos trabalhos expoentes desse período de sua produção. Com marcada inspiração cubista, a composição geométrica de seus elementos é responsável por apresentar uma condição expressamente bidimensional. As formas justapostas e recortadas que descrevem o cenário trazem ainda, segundo registrou o curador Tadeu Chiarelli, um caráter lúdico à pintura: “a artista o faz como se as colasse de maneira ‘errada’ (sobretudo o retângulo sobre a casa e a árvore) [à esquerda na tela]”.

Entretanto, nota-se na obra, frente à inauguração da técnica moderna em sua produção, traços capazes de manter ainda sua característica “brasileira” fundante em meio ao mar artístico europeu que cruzava. A paisagem descritiva —a vegetação, o lago, a construção—, bem como o uso de um tonalismo vivo, expõem o uso estratégico de elementos naturalizantes. Assim, a artista apropriava-se do moderno de maneira singular, uma vez que instaurava “uma utopia da brasilidade tropical”, conforme observado pelo historiador paulista Nicolau Sevcenko (1952-2014).

Se o cubista Léger lançava mão de metonímias mecânicas e industriais, a produção de Tarsila do Amaral abrange símbolos do espectro da tropicalidade, étnicos e de uma narrativa da história brasileira. A obra parece evocar ainda uma espécie de alter ego da própria artista, que nasceu numa família abastada de fazendeiros mas foi educada à maneira francesa. Nos versos do poema Atelier, publicado em 1925, o então marido Oswald de Andrade sintetiza em uma frase o cosmopolitismo da parceira interiorana, que costumava se vestir em Paris com criações exclusivas do famoso costureiro francês à época Paul Poiret (1879-1944).

“Caipirinha vestida por Poiret / A preguiça paulista reside nos teus olhos... um cheiro de café / no silêncio emoldurado”.

Saudades, caipirinha

Em 1974, um ano após a morte da artista, a Folha de São Paulo publicou um depoimento de Tarsila concedido em 1971 ao Museu da Imagem e do Som (MIS-SP), sob o título Saudades, caipirinha. Na publicação revela-se o destino inicial de A caipirinha: o pavilhão modernista de Olivia Guedes Penteado, na rua Duque de Caxias, na capital paulista.

As palavras de Tarsila demonstram, no depoimento, sua escolha particular sobre o rumo da obra: “Ela [Olívia Guedes Penteado] transformou sua antiga cocheira naquele salão. Colocou todos os quadros no pavilhão e eu fiz um especialmente para dar a ela, um dos meus melhores quadros, era A Caipirinha”.

Próxima de artistas como TarsilaAnita Malfatti e Heitor Villa-LobosOlivia teve uma trajetória de grande incentivo à arte brasileira, além de sua perseverança na luta pelo voto feminino, que culminou na primeira eleição de uma mulher para a constituinte, a dra. Carlota Pereira de Queiroz. Sob a guarda inicial da mecenas, A caipirinha seguiu na linhagem da família Penteado por mais alguns anos, passando, após sua morte, à sua filha Carolina Penteado da Silva Telles.

Tarsila pop

Considerada unanimemente como um dos expoentes da arte brasileira, a figura de Tarsila do Amaral vem sendo cada vez mais celebrada, desde a década de 1980. Sua representação na cultura está presente no audiovisual, no teatro, na moda e até mesmo na astronomia.

Foi interpretada no cinema por Esther Góes em Eternamente Pagu (1987), de Carla Camuratti; e por Eliane Giardini nas minisséries Um Só Coração (2004) e JK (2006), na Tv Globo.

No teatro, foi tema da peça Tarsila (2001-2003), de Maria Adelaide Amaral, publicada como obra literária em 2004, após as apresentações.

Em 2008, a União Astronômica Internacional a homenageou batizando uma cratera do planeta Mercúrio como Amaral.

Este mesmo ano marca o lançamento do Catálogo Raisonné Tarsila do Amaral, compilando a obra completa da artista em três volumes, uma realização da Base7 Projetos Culturais, em parceria com a Pinacoteca de São PauloSecretaria de Estado da Cultura e Governo do Estado de São Paulo.

Em 2017, as pinturas de Tarsila estamparam uma das mais bem-sucedidas coleções da grife carioca Osklen, uma iniciativa conjunta entre o diretor criativo da marca Oskar Metsavaht e a família da artista. Esgotada naquela mesma temporada, algumas das peças da coleção voltaram a ser vendidas no Masp por ocasião da mega exposição Tarsila Popular.

Para mais informações, acesse www.bolsadearte.com

 

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