Cuiabá - MT, 27-05-2022 às 11:56

"E se fosse sua filha? Pelo Direito de (Re)existir

“Mulheres são como água, crescem quando se encontram”. No artigo da advogada Bárbara Lenza Lana pontos para nossa reflexão

Bárbara Lenza Lana | Creditos: Divulgação

No último dia oito de fevereiro, por volta das quinze horas, dois homens estupraram uma menina de quatorze anos na praça Rachid Jaudì, um dos pontos turísticos da cidade de Cuiabá/MT.

Embora a menina tivesse gritado por socorro, e fosse um local de grande circulação, “ninguém” ouviu!

Logo após, as notícias: “MENINA DE 14 ANOS É ESTUPRADA”- quem é sujeito aqui? A culpa é de quem?

Mitos são narrativas utilizadas pelos povos gregos antigos para explicar fatos da realidade e fenômenos da natureza que não eram compreendidos pelos “homens”.

Carregadas de simbologia, personagens sobrenaturais, deuses e heróis, essas narrativas constituíam um guia confiável para a vida em sociedade. Passadas de geração em geração, sem que nos demos conta, elas passam a compor o nosso universo de crenças.

Quem nunca ouviu falar que “a esperança é a última que morre” que atire a primeira pedra! 
Quem nunca nutriu esperança até a exaustão, descansou e voltou a nutrir mais um pouquinho, que se manifeste.

“É verdade”- dizem! Verdade de quem? De onde?

Peggy Reevers Sandy, citada por Gerder Lerner, em “A criação do Patriarcado”- (2009), nos traz que “ao articular sobre como as coisas eram no início, as pessoas (...)fazem uma declaração essencial a respeito da sua relação com a natureza e sua percepção da fonte de poder do Universo”

Filha de Fórcis e Ceto, antes de ser tornar o monstro decapitado por Perseu, Medusa era uma sacerdotisa com traços finos e delicados, cabelos longos, e uma beleza invejável, que vivia no templo de Atena, a deusa da sabedoria.

Para exercer o sacerdócio, era dever e vontade de Medusa manter-se virgem e casta (“pura”), sendo comum, no entanto, que homens e deuses, atraídos por sua beleza, se dirigissem ao templo de Atena, única e tão somente para observar Medusa, o que despertava a fúria da deusa para com a sacerdotisa!

Dentre esses homens e deuses, Poseidon, embora consciente de que as sacerdotisas daquele templo deveriam manter-se puras, assediava Medusa na medida em que ela se esquivava dele, até que, dominado pela paixão, a estuprou ali, no templo, diante da estátua de Atena que, tomada pelo ódio, decidiu castigá-lA.

Para a deusa, Poseidon apenas seguiu os seus instintos de homem.

Medusa, por sua vez, foi estuprada por ele, profanando o templo, culpa dos seus encantos de mulher.

Percebem? “Menina foi estuprada! ”

O dever de castidade foi quebrado! Medusa deixou de ser pura, e por ter violado o templo, por Atena foi amaldiçoada: seus cabelos viraram serpentes, seu corpo foi coberto de escamas, seus dentes se tornaram dentes de javali e toda pessoa que para ela olhasse, viraria pedra.

“O que uma menina de quatorze anos estava fazendo sozinha, andando pela praça às quinze horas? ” – Voltando da aula de informática!

“Ela não viu que a praça estava abandonada? ” – Pessoas transitam por ali!

Se ela estava tão certa de que foi estuprada, porque tentou se jogar diante dos carros em movimento para morrer?

Medusa, a górgona com cabelos de serpente e olhar petrificador, é a figura mítica que legitima a invisibilidade e a culpabilização das mulheres estupradas.

No dia 23 de fevereiro de dois mil e vinte e dois, um grupo de mulheres anônimas, ativistas e não ativistas encamparam um ato silencioso na praça Rachid Jaudì. O nome do ato?


“E SE FOSSE SUA FILHA? ”

Embora algun(ma)s de nós, eu, inclusive, evitemos chamar a atenção para os direitos humanos de mulheres e meninas vinculando-as a outras figuras, devo reconhecer que na maioria das vezes é o que nos resta de retórica para sermos vistas e ouvidas, a princípio.

Estar diante de questionamentos quanto ao privilégio de poder estuprar mulheres é incômodo para quem faz questão de manter-se nele, ainda que se veja incapaz de fazê-lo, a gente sabe.

Chamar a sociedade, leia-se: todas, todos e todes para a responsabilidade em educar e educar-se, também!

Provocar o Poder Público então? Quem somos nós nas nossas insignificâncias para cobrar segurança e políticas públicas de educação como forma de prevenção das autoridades?

Para além da narrativa que valida o estupro das meninas e mulheres, especialmente as periféricas, trago também a minha experiência enquanto mulher (não mais) anônima que esteve no ato: o que vi é que para uma grande maioria ali uma menina estuprada é só uma menina estuprada, ponto.

Por outro lado, um grupo de mulheres articuladas reivindicando direitos e chamando a sociedade à reflexão, é um incômodo sem proporções!

Também, ai de nós que encampamos esses movimentos e nos comportamos conforme os nossos valores e ideais, caso contrariemos aquelas que se sentem as donas das dores do mundo!

Quando falamos em defesa de classes e quebra de estrutura, reconhecemos a nossa existência no plural, e isso nos torna alvos fáceis de todo tipo de mazelas.

Poseidon estuprou, é fato.

Mas Atena, que estava lá, fez o quê e por quê? Não é preciso desenhar para que fique claro quem venceu essa batalha, contudo, são novos os tempos!

À medida em que avançamos e nos posicionamos, nosso olhar se expande para além de nós: TODAS, indistintamente, SOMOS FILHAS!

Que a nossa consciência nos permita formar oceanos!

(*) BÁRBARA LENZA LANA é Advogada Para Mulheres, Líder do Comitê de Combate à Violência Contra a Mulher do Grupo Mulheres do Brasil-Núcleo Cuiabá, Diretora Administrativa do Movimento Conecta.

 

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