Cuiabá - MT, 27-05-2022 às 10:44

Uma história para inspirar os que desejam um novo padrão de família

Elas são mulheres, se amam, são casadas há cerca de dois anos, apóiam-se mutuamente, compartilham de sonhos em comum e aguardam a chegada de Adam, o primeiro filho do casal.

Aliara e Marina aguardam a chegada de Adam, o primeiro filho do casal | Creditos: Arquivo pessoal

É de pura inspiração, aos que querem formar uma família homoafetiva e experienciar a dupla maternidade, a história  da administradora Aliara Tanahashi Alves, que empreende desde 2008, na área de tecnologia, e da médica, Marina Faria Bloemer, que atua com radiologia e diagnóstico por imagem há 8 anos Elas moram em Cuiabá, capital de Mato Grosso, e assumiram o relacionamento tanto para a família, quanto para a sociedade, porque acreditam que é dentro de cada um que a transformação acontece e, constitui-se num passo fundamental apropriar-se do que se é, sem medo de ser feliz e de se inserir em novos padrões de famílias.

Registro do dia do casamento

O respeito, a compreensão e a aceitação, por suas escolhas, tanto Aliara, quanto Marina encontraram no lugar mais importante da vida, o seio familiar. “Muitos casais homoafetivos tem dificuldades para estabelecer o diálogo com os pais, em relação a sexualidade, sentem medo de exporem” disse Aliara, sendo da mesma opinião Marina, que destacou ser dentro de casa que se estabelece o principal processo de aceitação.

Com os pais de Aliara. Registro da revelação do sexo do primeiro filho do casal:Adam.

Alice Massako Tanahashi Alves e Dilmar Antonio Barrionuevo estão em grande expectativa, e nas suas falas mostram claramente que a escolha feita pela filha Aliara e Marina está trazendo orgulho e as melhores expectativas ao casal.

"Aliara e Marina se uniram para constituir sua família e gerar um bebê que está para nascer, sinto gratidão de poder participar da vinda do meu neto Adam, estamos esperando com amor e carinho”, disse Alice, o seu marido Dilmar, também fala com muita amorosidade. "A minha felicidade é imensa com a vinda do meu neto Adam,$ pela minha filha Aliara e de uma união de amor e carinho com minha nora Marina, respeitando e aceitando as suas escolhas de vida, amo vocês." 

A mesma benção dada pelos pais de Aliara para o casal, foi dada pela mãe de Marina, Maria de Lourdes, que participou do casamento numa demonstração clara de  respeito a  orientação sexual e a união de ambas. Vale destacar que o pai da Marina José Bloemer é falecido desde 2006.


Mulheres bem sucedidas e conscientes de suas escolhas
Aliara tem 36 anos e Marina 35, elas são de uma geração que já está numa situação mais confortável em relação às conquistas para a diversidade, com a criação de condições que promovem a dignidade e o respeito aos direitos humanos. No Brasil, por exemplo, após muitos  obstáculos para a união homoafetiva, a  decisão do Conselho Nacional de Justiça, em autorizar o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, conforme Resolução nº 175, publicada no dia 15 de maio de 2013, foi um grande avanço. Com isso o casal que está inserido à comunidade LGBTQIA+ passou a ter condição igualitária de direitos para seguir a sua livre orientação sexual. Outra conquista importante ocorreu dois anos depois, quando o Conselho Federal de Medicina aprovou mudanças nas regras de reprodução assistida permitindo a realização de procedimentos de Reprodução Humana Assistidaindependente do estado civil ou orientação sexual.

“Passamos pela jornada completa, oficializamos o nosso casamento, no dia 6 de março de 2020, a certidão foi aparte legal da história e a gravidez o divisor de águas”, disse Marina.  Segundo Aliara, a primeira a engravidar, disse que  elas recorreram ao processo de fertilização por banco de sêmem, com reprodução assistida,  sendo que ambas já haviam optado por congelar seus óvulos. O casal conta que escolheu o sêmem de um único doador para fecundarem os óvulos, garantindo assim uma ligação genética aos futuros irmãos.

No ensaio fotográfico momentos de afeto   

O caminho que o casal está percorrendo exige tomada de decisões que precisam ser entendidas e respeitadas, por isso compartilharam com a família os seus passos, sem surpresas. Por outro lado, independente da família aceitar o relacionamento, Aliara disse que foi preciso algo além. O período de gestação lhe levou a posicionar-se, principalmente no sentido de fazer seus pais compreenderem que o filho que está gerando é igualmente de ambas, em direitos, amor, afeto e responsabilidades com a criação. 

Aliara e Marina se preparam para dar respostas aos muitos questionamentos que poderão surgir devido assumirem um novo padrão de família, inclusive para os próprios filhos, sem segredos. Os recursos familiares e os advindos de terapias as fortaleceram neste sentido. “É um processo educativo, começa em casa, depois vai para outros espaços, a exemplo da escola e outros dos quais as crianças percorrerão em seus convívios sociais. Temos que falar para elas de forma leve, mas sem fantasias, sem nada esconder”, destacou Aliara. Marina complementa: “Queremos que os nossos filhos cresçam sem receios. Será muito importante estabelecermos sempre um diálogo franco, com amor e respeito”. Elas reconhecem, entretanto, que será uma fase que exigirá paciência.

Simples assim, elas se amam e assumiram o relacionamento 

Questionadas se o fato de estarem numa classe social mais abastada e de ambas externarem muita feminilidade facilitam para elas o processo de serem aceitas na sociedade, elas acreditam que sim. “Por mais que tivemos avanços, percebemos que a sociedade continua externando preconceitos e isso fica mais visível quando a mulher se masculiniza. Precisamos ser exemplo e lutar contra isso” salientou Marina. No tocante a questão do poder aquisitivo Aliara destaca que os casais menos favorecidos ficam realmente em desvantagens, a exemplo das mulheres que desejam a maternidade dupla, e não têm acessos os meios de reprodução assistida. Muitas fazem suas inseminações em casa, travando depois um longo caminho na justiça para o reconhecimento de seus filhos.

Na condição de médica Marina tem visto que muitas mulheres que desejam optar pela dupla maternidade, mas que procuram não revelar suas orientações sexuais por receio de serem discriminadas, prejudicadas no trabalho e em suas relações sociais. Mesmo cientes que estão emigual patamar em seus direitos jurídicos elas preferem abrir mão de assumirem “Ao expormos a nossa história para o mundo, não estamos querendo simplesmente mostrar coragem, ou aparecer, mas sim servir de exemplo, contribuir para uma maior aceitação por parte da sociedade e criar cada vez mais ambientes inclusivos. Sou uma pessoa empática, procuro sentir o que o outro sente, a sua dor. Quero externar respeito e amor. Que haja mais empatia, com ela acredito que haverá também mais aceitação e a construção de um mundo melhor, solidário e mais igualitário”, finaliza Marina.

Em suas redes sociais Aliara mostrou que fez uma arte gestacional, uma experiência de conexão com o Adam e também com toda a sua família. Com isso ela disse estar se despedindo da “barriga, pelos poucos dias que ainda restam. Deixou registrado que o Adam será um filho de duas mães ligadas a espiritualidade e conectadas a natureza. Disse que ela e sua esposa acreditam na perpétua evolução. “Que a sociedade possa evoluir, respeitando a diversidade, os novos modelos de famílias e que impere o amor acima de tudo”.

Para Aliara na Bandeira do Brasil deveria ter uma palavra de maior força, dentre as emoções positivas, agregada aos seus dizeres, ficando por sua sugestão: ordem, amor e progresso. “Espero um futuro melhor para os nossos filhos, e aos que virão do ventre de outras mães. Que possamos inspirar, contribuindo principalmente para a saúde mental das pessoas, para que tenham aceitação, amparo emocional, acolhimento e  orientação”, predisse.

 

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