Jornal Rosa Choque
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Cuiabá - MT, 02-12-2020 às 13:55

As novas bruxas, mulheres maduras, livres e inspiradas pelo fogo  

As mulheres maduras, em sua essência mais feminina, compartilharam a sabedoria dos anos vividos, o conhecimento empírico da cura e da sexualidade, além de se afirmarem donas da própria liberdade.

Para a história, as bruxas são a resposta da Igreja para emudecer o protagonismo feminino existente | Creditos: Pixabay e divulgação

As mulheres em chamas são hoje a lembrança de que, desde quando há uma mulher, há também a vontade por autodeterminação. No dia das bruxas, ressignificar a figura dessas mulheres no imaginário coletivo é acolher também a ideia de que uma parte delas ainda mora em nós, e em todas aquelas com quem aprendemos a ser, cada vez mais, nós mesmas.

Elas eram emancipadas, sexualmente livres, parteiras e benzedeiras, amigas da vida e da morte. Solteiras ou viúvas, eram uma ameaça ao controle e à autoridade da Igreja, combatida com ódio, violência e fake news. Acusadas de causar o descontrole nos homens, de serem próximas do diabo e até de sequestrar e assar crianças, como no conto de João e Maria, as bruxas são a imagem feminina da resistência. 

Sua imagem persiste no imaginário humano, mesmo quando uma narrativa falsa foi repetida por séculos com o objetivo de oprimir e apequenar. Hoje, essa força feminina se manifesta em outros rostos e outras vidas, na forma de mulheres maduras que enxergam dentro de si sua identidade de bruxas, inconformadas com as regras, resistentes ao lugar que insistem em colocá-las e, acima de tudo, em busca de um lugar próprio que transborda qualquer convenção social.

Símbolos de resistência

A cientista social Isabelle Anchieta, autora da trilogia Imagens da Mulher no Ocidente Moderno, passou oito anos estudando o retrato feminino na arte. Nesse processo, ela se aprofundou em alguns estereótipos femininos, entre eles, o da bruxa, das índias tupis canibais e das estrelas de Hollywood. Sua grande descoberta, porém, é que, apesar de silenciadas ao longo da história, o retrato feminino reflete a força e não a fraqueza das mulheres, com uma narrativa que fala mais sobre a busca pela própria liberdade do que sobre submissão. 

Para a história, as bruxas são a resposta da Igreja para emudecer o protagonismo feminino existente, especialmente, nas comunidades rurais da Europa e dos países anglo-saxões. Porém, não é só o radicalismo religioso que explica o feminicídio. Há também, durante esse período, a institucionalização do ódio à figura feminina, personificando a culpa por pestes, secas e todo tipo de má sorte que atingia as comunidades.

Segundo Isabelle, a perseguição oficializada às bruxas começa em 1326, por meio de uma bula papal determinada pelo Papa João XXII afirmando que toda mulher que ousasse curar, deveria morrer. Os registros sobre o número de vítimas nesses cinco séculos que se seguiram, porém, são imprecisos, já que os papéis dos julgamentos eram queimados na mesma fogueira que elas. 

Alguns estudiosos arriscam dizer que 200 mil pessoas foram mortas, enquanto outros chegam a contabilizar 9 milhões de pessoas acusadas, julgadas e mortas, na maioria mulheres, configurando o maior genocídio por gênero da história.

Os três lugares de liberdade da mulher-bruxa

As acusações que começaram pela cura, logo se expandiram para três grandes temáticas, que explicam também o porquê, ainda hoje, esses são espaços nos quais as mulheres precisam combater séculos de desinformação e misoginia para se afirmar. O primeiro deles, claro, é a profissão. 

1. Profissão de cura

As bruxas eram grandes mestres da profissão da cura: parteiras, benzedeiras, curandeiras, médicas. Nas zonais rurais, nas quais não haviam médicos ou cujo acesso era perto de impossível, essas camponesas eram as médicas dos pobres, enquanto a aristocracia era tratada por médicos homens. 

Seu conhecimento adquirido por meio de outras mulheres mais velhas era repassado para suas filhas, sobrinhas e netas, que herdavam simpatias, receitas e todo o conhecimento empírico acumulado de uma vida inteira de tratamentos e curas. Porém, por não ser compreendido pela medicina tradicional da época, esse conhecimento era visto como obra de magia e feitiçaria, associada ao mal. Tratava-se somente do entendimento profundo da terra e das propriedades medicinais das plantas que criavam pomadas, chás e unguentos para toda sorte de doenças. 

Hoje, a persistência desses conhecimentos da terra, aos poucos absorvido pela ciência tradicional, resiste também na figura das benzedeiras. Ou ainda, quando uma mulher atua na medicina, quando uma avó faz um chá para tratar uma dor de alguém da família ou transmite seus aprendizados de cura às próximas gerações, ali está a presença resistente das mulheres em chamas lembrando e honrando a bruxa curandeira que mora em nós.  

2. Sexualidade livre 

Assim como o conhecimento da cura, a sexualidade era aprendida de geração para geração, das mulheres mais velhas para as mais novas, que experimentavam em sua individualidade a potência orgástica que residia em cada uma delas. Longe da imagem de virgindade disseminada pela figura construída da Virgem Maria, essas mulheres escolhiam abdicar da vida religiosa para viver seu desejo e sua liberdade. 

Porém, foi principalmente nos últimos séculos dessa perseguição que o controle de natalidade e sexualidade sem fins de reprodução começaram a ser demonizados, com penas cada vez mais cruéis contra o aborto e a contracepção. Nesse momento, as parteiras foram marginalizadas tirando a mulher desse momento de nascimento, a partir de então controlado pelo médico homem. 

A perseguição era centrada em mulheres que vivam relações fora do casamento, viúvas, ou ainda, mulheres em relações homoafetivas. Existia, com isso, uma visão dominante de que a sexualidade feminina só poderia existir a serviço de algo: seja ele o prazer masculino ou a reprodução. Séculos depois, a perseguição ainda é realidade em muitos lugares do mundo. Mais de 200 milhões de garotas, entre a infância e a idade de 15 anos, sofrem mutilação de suas genitálias (FGM), segundo dados da OMS

Havia ainda a crença de que seria possível identificar uma bruxa por marcas em seu corpo como verrugas e protuberâncias, levando milhares de mulheres à fogueira por terem, simplesmente, seu órgão do clitóris, identificado. 

Um distanciamento histórico hoje indica que as bruxas foram, por séculos, marginais atrativas, como denomina Isabelle, uma projeção de desejo e temor, medo e atração. Eram acusadas de sedução e feitiçaria que provocava o descontrole dos homens, “reféns” de seus próprios desejos. Por isso, muitas delas eram acusadas somente por sua beleza, provocado pensamentos anti-celibatos nos padres ou afastando os homens de seu caminho espiritual.

Nesse período, as poções e caldeirões, símbolos emprestados dos rituais indígenas do “Novo Mundo”, eram vistos como ferramentas para atrair parceiros, roubar seus órgãos ou lhes causar impotência, aumentando a demonização das bruxas.

Hoje, cada vez que uma mulher se apropria de seu corpo, e não o permite ser colonizado por nada, nem ninguém, está também manifestando a bruxa que há em si. Submissão e obediência foram valores moldados pelo fogo, na tentativa de oprimir e “disciplinar” as mulheres a cada condenação à fogueira. 

3. Contato com divino

Por fim, algumas bruxas eram grandes sacerdotisas, o que as tornava grandes ameaças ao monopólio salvacionista da Igreja Católica. Para algumas religiões milenares, elas estavam a serviço da Grande Mãe, uma energia divina feminina criadora do planeta e do Universo. Por meio de cristais e plantas, transmitiam seus ensinamentos de geração para geração, em reuniões que ficaram conhecidas como “reuniões de bruxas”.

Hoje, algumas práticas ainda persistem como pequenos rituais de proteção do lar, uso de cristais para equilíbrio e proteção, além da relação com o ciclo lunar e o ciclo menstrual. A data de 31 de outubro, por exemplo, tem origem na festa pagã de agradecimento pela abundância da colheita, em um ritual de reconexão com a essência do Universo que nada tem a ver com a invocação do mal.

Juventude, beleza e virtude

Mulheres velhas, cheias de verrugas, de nariz grande e costas curvadas: assim foram conhecidas as bruxas retratadas pelo cinema e pela televisão. Mas essa é uma versão recente das bruxas originais. Na Idade Média, as bruxas eram retratadas como mulheres belas, jovens e que causavam desejo. A mudança no retrato das bruxas também explica porque o envelhecimento das mulheres é visto de forma tão marginalizada na sociedade. 

A partir dos séculos XVI e XVII, a beleza passou a se associar à virtude. Assim, a decrepitude também passou a ser sinônimo de imoralidade. O Renascimento é um dos grandes responsáveis por essa construção. Dessa forma, também, algumas alegorias começam a se associar à velhice como a feiura, a avareza, a rabugentice e imoralidade. A origem estava na incompreensão das mulheres mais velhas, especialmente das viúvas, já que o poder da experiência gerava medo no gênero dominante. 

Por décadas, a juventude foi cobiçada e reafirmada pelos romances, pela imprensa e, nas últimas décadas, pela televisão e publicidade. Houve, então, uma inversão histórica: as mulheres mais velhas passaram a buscar a referência feminina nas mais jovens tentando prolongar a própria juventude e esconder as marcas da idade, perdendo seu espaço de tutora das novas gerações. 

Um novo fenômeno, porém, está se manifestando nesse exato momento e pode ser presenciado no seu feed de Facebook. As redes sociais deram às mulheres maduras o espaço para expressão pura, livre e corajosa de quem são, apesar de toda narrativa contrária enraizada no imaginário comum. São elas, agora, que assumem sua sabedoria, expõem seu corpo, sua vida e seu estilo em busca de aprenderem umas com as outras a encontrarem o seu lugar. 

São essas mulheres maduras, bruxas em sua essência mais feminina, que compartilharam a sabedoria dos anos vividos, o conhecimento empírico da cura e da sexualidade, além de se afirmarem donas da própria liberdade. E são elas, enfim, que ensinam às gerações mais novas de filhas, sobrinhas e netas o que significa ser mulher. 

“As bruxas sempre foram mulheres que se atreveram a ser corajosas, agressivas, inteligentes, não conformistas, curiosas, independentes, sexualmente liberadas, revolucionárias. A bruxa vive e ri em cada mulher, ela é parte livre de cada uma nós. Você é uma bruxa pela fato de ser mulher, indomável, desvairada, alegre e imortal.”

Fonte: Sisterhood is Powerful, de Robin Morgan.

Nesse dia das bruxas, portanto, o convite é diferente de qualquer Halloween que já tenha participado. Na sua profissão, na prática da sua sexualidade ou na sua relação com o Universo, há uma expressão anterior de todas as bruxas que te antecederam, mas cuja resistência mora em você. Para honrar essa sabedoria, não há segredo, nem feitiço. Ela começa por reconhecer os séculos de luta de mulheres-bruxas que abriram espaço para hoje termos nossos direitos assegurados. Mulheres que foram queimadas, torturadas, silenciadas pela força, mas que seguem ressoando dentro de nós.

Elas nos lembram que existir no mundo enquanto mulher ainda é um processo de contínua construção. Diversas esferas sociais ainda não são ocupadas pelas mulheres com igualdade de direitos e liberdade de existir. A esfera econômica, do trabalho e da política são só algumas a serem mencionadas. Se assumimos, então, que a liberdade está em alargar nosso espaço e não permitir que nada nos diminua ou nos censure de sermos tudo que somos, então, nesse dia das bruxas, sejamos nós “as netas das bruxas que eles não conseguiram queimar”.

Sobre a Lilit

Religiões diversas, hebraicas, babilônicas e até cristãs, mencionam a existência da primeira mulher do mundo, Lilith. Porém, desde o início dos tempos, sua história foi ofuscada, distorcida, não contada. O seu mito é também a história de como a humanidade enxerga o desejo feminino e nossa relação com o próprio corpo.

Inspirada na liberdade de Lilith, Marília Ponte desenvolveu uma das primeiras marcas brasileiras de vibradores, criada por e para mulheres. O Bullet Lilit promete te ajudar a experimentar essa potência que já vive em você, mas a fundadora afirma: “A revolução do prazer só vai acontecer quando, inspiradas nas mulheres que nos antecederam, nos dermos conta do que somos capazes de almejar. Na cama, no quarto e na vida.”

“A revolução começa na nossa intimidade. Quando conversamos com as mulheres da nossa família, damos luz às suas jornadas, às suas cicatrizes que carregamos com a gente, na nossa própria história. Ouvir as histórias das minhas avós e da minha mãe, me inspiraram a ter mais autonomia e querer honrar o que já trilharam. Foi pensando nelas e não desejando repetir suas histórias que decidi criar a Lilit ”

O ano é 2020. Parece distante das fogueiras da Inquisição. Mas sentimos os efeitos na nossa intimidade até os dias de hoje. Mais de 90% dos homens afirma atingir o orgasmo durante a relação sexual, enquanto só 39% das mulheres afirmam o mesmo. Enquanto 23% das mulheres descrevem as últimas experiências sexuais como nada prazerosas, só 5% dos homens concordam. (Baseado em estudo realizado com mulheres e homens cis e heterossexuais).

Apesar disso, é dentro de nós que mora o único órgão dedicado exclusivamente ao nosso prazer: o clitóris. A ciência levou dois mil anos para conhecer a real estrutura do complexo do clitóris, antes conhecido como “a teta do diabo”, uma prova incontestável de que mulheres que apresentavam glandes um pouco mais longas eram bruxas destinadas às fogueiras.

https://www.somoslilit.com/

Sobre a Maturiboss

Maturiboss é um portal de conteúdo e troca para homens e mulheres que estão entrando na maturidade. De um jeito simples e fácil, tratamos de assuntos que estão presentes na mesa do jantar.

https://maturiboss.com.br/

Abraços,

 

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