Jornal Rosa Choque
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Cuiabá - MT, 26-10-2020 às 00:51

Como a economia criativa e as transformações socioeconômicas propiciam viver do empreender criativo?

O empoderamento dos artistas, empreendedores e criativos é oportuno. Os protagonistas dessa nova cadeia produtiva criativa precisam compreender essas transformações.

O viver da própria arte , do próprio fazer, do empreender , é fato dentro de uma cadeia produtiva não mecanicista e com escoamento da produção/serviço de forma rentável | Creditos: Pixabay

Por Ana Eliza Lucialdo

 Em um mundo globalizado, como acontecem às relações socioeconômicas dos empreendedores criativos na cidade, em suas singularidades? Para isso, foi necessário compreender a definição de singularidades, para introduzir à cidade numa perspectiva do cotidiano com hibridações e suas peculiaridades:

Singularidades – no plural – apontam para os muitos modos de fazer populares inventados em quase trezentos anos de existência e insistência socioeconômica e cultural. O conhecimento popular em Cuiabá, propriamente invenções de saberes ao modo de astúcias do dia-a-dia, se espraia pelas mais diversas áreas: artesanato, pesca, pecuária, música, dança, vocabulários, sotaques, sociabilidade e culinária (Gushiken; Silva; Magalhães, 2013, p. 57).

Como a economia criativa e as transformações socioeconômicas propiciam viver do empreender criativo?Diante da semente do incomodo, busca-se encontrar o início dessa conexão entre o local, o real e o “perto da gente” atrelado a economia criativa

Para tanto, faz-se necessário à contextualização das transformações históricas sustentadas na compreensão de espaço-tempo e as rupturas dos paradigmas rígidos da modernidade: produção em série, capitalismo mecanicista e a apresentação do indivíduo multifacetado, diante de várias possibilidades sociais. Portanto, a compreensão da transição da modernidade sólida para a líquida de Bauman (2001). A sociabilidade ganha novos formatos advindos da velocidade, a exemplo dos transportes, bem como, da interconexão propiciada pela internet. Além de aspectos apresentados por Brandão (2005, s/p):

A circulação submetida à alteração da velocidade e da frequência tem produzido situações sequer de longe imaginadas nos séculos precedentes. Um primeiro exemplo, que atende à alteração da velocidade, é a transformação ocorrida nos meios de transporte. Entre 15 km/h (marcha média do cavalo) e 800 km/h (avião a jato a 30.000 pés) não há apenas uma mudança numérica com consequências exclusivas para o tempo gasto no deslocamento. Mundos muito diferentes e subjetividades inconcebíveis se desdobraram a partir da alteração radical das velocidades praticadas.... É importante mencionar a obra do sociólogo polonês Zygmunt Bauman e sua tese sobre a passagem de uma modernidade sólida para uma modernidade líquida (contemporaneidade) que se caracterizaria, entre outras coisas, por uma dramática mudança nos padrões espaço-temporais.

Ao ampliar as conexões, estas são intensificadas e oportunizam novos formatos de relações sociais, econômicas e culturais promovendo uma sociabilidade apresentada em mais possibilidades, a exemplo as comunidades virtuais. Os formatos de relacionamentos são ampliados, contudo, descompromissados e frágeis.

Ainda, a cultura tecnológica, digital e da mobilidade abraça a interatividade comunicacional tornando-se o fenômeno em que a velocidade da comunicação se intensifica, o espaço se comprime e as relações acontecem envolvidas em um imaginário tecnológico.

Atualmente, na era pós-industrial, a nova estrutura social e econômica se apresenta pautada em aparatos tecnológicos, desenvolvida em redes e comunidades de relacionamento. Ao oportunizar acúmulo de riqueza a partir de inovações e ideias, aparece a possibilidade de inserção na cadeia produtiva dos agentes da Economia Criativa, àqueles pertencentes às funções mercadológicas das áreas de indústrias criativas identificadas na Arquitetura, Artes e Antiguidades, Artes Cênicas, Artesanato, Cinema, Fotografia e Vídeo, Design, Editoração, Moda, Música, Publicidade, Rádio e TV e Softwares. Os apontamentos de Xavier Greffe corroboram com essa interpretação:

Quando se fala de economia criativa, não se quer dizer que a economia torna-se repentinamente criativa, mas que formas originais de criatividade assumem um lugar importante e poderiam garantir um futuro desenvolvimento. Essas formas residem no crescente papel de fatores imateriais na produção (conhecimento, organização), da demanda de experiência dos consumidores, da importância dos produtos de conteúdos em diferentes mercados. Nesse contexto, parece que se redescobre o papel que a cultura desempenha na economia. Mas ali onde Weber tinha feito da cultura um ambiente mais ou menos propício ao desenvolvimento do espírito capitalista, a economia criativa dá à cultura um papel ainda mais ativo, dela fazendo uma alavanca direta de produção e do consumo de bens e serviços (2015, p. 17-18).

Deheinzelin (2008) pontua que cultura, criatividade e conhecimento são matérias-primas da Economia Criativa, recursos estes que não se esgotam, mas se renovam e multiplicam com o uso, e que são estratégicos para a sustentabilidade dos negócios.

As manifestações culturais são alavancas para oportunizar o desenvolvimento da cadeia produtiva criativa. Os mercados e os consumidores anseiam por produtos produzidos de forma customizados. Neste momento onde os consumidores anseiam por produtos “únicos”, os criativos, devem preencher essa lacuna com suas criações. Também, evidenciada por Alvin Toffler (1994), as transformações possibilitam a economia um novo formato de produção, diante desse cenário de relações líquidas.

A geração de produtos de larga escala, passa à produção em pequena escala ou individual. Portanto, possibilita aos artistas, criativos e empreendedores culturais a escoarem sua produção e conseguirem sua sustentabilidade e inclusão social. Contudo, existe resistência dos agentes criativos em acreditarem que isto é possível.

O viver da própria arte , do próprio fazer, do empreender , é fato dentro de uma cadeia produtiva não mecanicista e com escoamento da produção/serviço de forma rentável. Assim, rompem-se as barreiras do paradigma do capitalismo tradicional, ao reinventar o próprio sistema capitalista, em uma versão sustentável.

O empoderamento dos artistas, empreendedores e criativos é oportuno. Os protagonistas dessa nova cadeia produtiva criativa precisam compreender essas transformações. Apropriar-se delas. A mudança do poderio econômico para bens intangíveis, sedimentados na criatividade, trata-se de um momento democrático da história para subsistência, acúmulo de bens e inclusão social dos criativos.

Ana Eliza Lucialdo é professora, palestrante consultora de estratégia e negócios digitais. Mestre com pesquisa em economia criativa (ECCO/UFMT), em Políticas Públicas pela Universitat de Girona (Espanha), MBA em Comunicação e Marketing. É filiada a BPW Cuiabá e ao PMI-MT.

 

Referências

BAUMAN, Z. (2001). Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

BRANDÃO, L. (2005). Circuitos subalternos contemporâneos: pessoas, objetos e valores em trânsito”. Pesquisa de pós-doc. Chaire de Recherchedu Canada enTransfertsLittéraires et Culturels, Université d’Ottawa.

CANCLINI, N. (1997). Culturas híbridas. São Paulo: Edusp.

DEHEINZELIN, L. (2008). Cadernos de Economia Criativa: Economia Criativa e Desenvolvimento Local. Sebrae/ES e SECULT, Vitória-ES.

GREFFE, X. (2015). A economia artisticamente criativa. Editora Iluminuras – Itaú Cultural: São Paulo.

GUSHIKEN, Y; DA SILVA, L. A; MAGALHÃES, A. J. A de. (2013). Rumores e sabores de uma feira: Culinária popular e cosmopolitismo banal em Cuiabá. RUA [online], nº. 19. Volume 1.

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