Jornal Rosa Choque
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Cuiabá - MT, 25-10-2020 às 23:40

Laurinda Santos Lôbo

A cuiabana Laurinda Santos Lôbo foi influente na aristocracia da cidade do Rio de Janeiro, fez da sua mansão, herdada do tio Joaquim Murtinho, um centro de encontros da intelectualidade e brilhou como mecenas.

A cuiabana Laurinda Santos Lôbo, ao centro, foi considerada “uma verdadeira parisiense de Saint-Germaine”. | Creditos:

Por Ubiratã Nascentes Alves

A eventual consulta oftálmica junto ao amigo de infância, o respeitável Dr. Salin Nadaf,  quem eufórico trouxe à baila seu achado, a existência da “Marechala da Elegância”, mecenas das artes no Rio de Janeiro na primeira metade do século XX, mas desconhecida em sua própria terra. Governava a província João Batista de Oliveira - Barão de Aguapeí, quando em Cuiabá veio ao mundo esta taurina em 4 de maio 1878, era sua genitora Leonor Murtinho, ficando logo órfã de pai. São poucos registros até ir residir na capital federal, onde foi criada pelo seu tio Joaquim Murtinho.

Paris acreditam, tenha sido o local de sua criação, mas é certo que jovem aos 16 anos foi morar no bairro de Santa Teresa no Rio de Janeiro, na época a região mais aristocrática da cidade. Neste local ergueram entre 1898 e 1902 o suntuoso palco de um futuro cenário artistico e cultural, onde abrigou-se o Modernismo brasileiro, o Palacete do tio Joaquim Murtinho, um silencioso gênio. Ministro por duas vezes, Viação e Obras Públicas gestão Prudente de Moraes, depois  Fazenda na presidência de Campos Salles; criou a primeira instituição estadual de crédito o Banco Rio Mato Grosso e através deste torna-se o maior acionista da Cia. Mate Laranjeiras cujo lucro no seu auge, era seis  vezes a arredação dos tributos de MT, foi senador, médico da princesa Isabel, Deodoro e outros. A fulgurante mansão próxima ao Largo do Curvelo (foto)  guardada por 78 cães, com a baía de Guanabara aos seus pés e mirante próprio, consegue-se idealizar sua opulência, e Laurinda já adulta promove abertura aos expoentes para saraus e intermezzos de piano, como presidentes e a fina flor dos artistas. 

Expirando o nababesco tio em 18 de novembro 1911, após turbidas transações familiares, o Palacete e a fortuna vão para Laurinda, segundo Ruy Castro: “nunca estiveram em melhores mãos. Era de formação internacional desfrutava do seu apartamento em Paris, 9 Place de la Madeleine, entre outubro e abril por meses, seguindo-se no salão em França, … recebia a brasileiros e franceses. Madame Santos Lôbo foi referência de elegância às mulheres do Rio de Janeiro na Belle Époque,  marcou era como a “Diva dos Salões”, fez da mansão um centro de encontros da intelectualidade e brilhou como mecenas, ainda geriu o Conselho da Federação Brasileira para o Progresso Feminino.

Foi considerada uma mulher muito elegante, como “uma verdadeira parisiense de Saint-Germaine”.

Casada no fim do século, antes da influente ascenção com Hermenegildo Santos Lôbo, atuava no ramo atacadista de tecidos, podia ser considerado rico e atraente, ela não era uma beldade, mas dominadora e sobravam admiradores, dormiam em quartos separados, uma relação aberta. Curiosidades, viajava sempre na companhia de sua genitora, motorista e as cachorrinhas de madame batizadas Pupée e Chinita, dispunha de três carros da marca Chryslers de placas 8665, 3328 e 3595, quando no bairro de Santa Teresa ninguém tinha carro, mas andava de bonde quando era necessário. 

A mansão consolida-se e após 1920 acolhe a nata dos artistas modernistas no Rio, torna-se o pontos mais badalados da vida cultural carioca, até nacional nas duas próximas décadas, reuniam famosos proeminentes como Graça Aranha, Tarsila do Amaral, a bailarina Isadora Duncan. Seu aniversário era um formidável evento, onde até dois presidentes participavam dos festejos, como Nilo Peçanha e Epitácio Pessoa, ministros, senadores, jornalistas, caricaturistas, poetas e músicos. O maestro Villa-Lobos desfrutou do mecenato, pois ela financiou a sua projeção em Paris em 1924,  reconhecido na Europa, em sua homenagem compôs a peça Quattour - impressões da vida mundana; ficou maecado quando Silvio Caldas tocou violão no casario, para alguns, um verdadeiro escândalo. O palacete Santos Lobo torna-se agora uma extensão do Palácio Itamaraty, uma legítima Chanceler, culminando os acertos para receber os reis da Bélgica no Palácio Guanabara, cedendo até sua cama! Foram convidados internacionais uma plêiade de primeiríssima grandeza, o compositor clássico Richard Strauss, o tenor Enrico Caruso, o pianista Arthur Rubinstein, os dançarinos Nijinsky, Anna Pavlova e Isadora Duncan, o imortal vencedor do Nobel em 1921 Anatole France e vários outros …

A participação era decisiva na vida artística do Teatro Municipal, definia a programação, parecia nem haver distância com a mansão e todos faziam récitas particulares nos salões de Laurinda. Foi cabal nesta interação, seu pendor para a decoração, participou desde o início das obras em 1905. Escolhia em razão do conhecimento apurado na França, de materiais, meras cores a ornamentos, assim foram móveis, mármores, espelhos e veludos, luminárias de bronze, lustres de cristal bisotado; ainda o verde onix no corrimão, o luxuoso subsolo e os touros alados nas colunas do cabaré Assírio. Foi sua opção para as esculturas os irmãos Bernardelli, nas pinturas E. Visconti e Rodolfo Amoedo.

Cognominada pelo imortal João do Rio como “a princesa dos mil vestidos”, se trajasse vermelho usava rubis da Birmânia, o preto para as safiras negras, no verde apareciam as esmeraldas. Realmente era enorme a sua compaixão e buscava amiúde ajudar pessoas ligadas ao meio cultural, desfrutou de sua enorme fortuna e rivalizou apenas com o imaginário Monte Cristo de A. Dumas, em Santa Teresa foi real e sem egoísmo partilhou até cerrar a cortina da sua vida em 16 de jul. 1946. Assume por fim os negócios o sobrinho Amauri Santos Lôbo, o Palacete por testamento coube à   Sociedade Homeopática que não toma posse, abandonado foi saqueado e afanaram o precioso  piano, dos móveis fizeram até mudança de caminhão, sem esquecer as maçanetas de ouro, todas subtraídas. Apenas amainou com a desapropriação e a criação Centro Cultural Municipal Laurinda Santos Lobo, visando preservar a memória da cidade e os opulentos dias de glórias de seus antigos proprietários.

Ubiratã Nascentes Alves, membro da Academia Mato-Grossense de Letras-AML - cadeira nº 1

ubirata100@gmail.com

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Wagner Moreira Neves . 27-09-2020 13:07hs

Parabéns pelo excelente artigo escritor Ubiratã Nascentes Alves eu sinceramente não sabia dessa história vou dar uma pesquisada nesse assunto.