Jornal Rosa Choque
Publicidade

Cuiabá - MT, 22-08-2019 às 20:23

Treino pesado na infância pode causar problemas de saúde

Analisar a atividade esportiva de uma criança não é simplesmente uma questão de somar o número de horas gastas semanalmente em esportes organizados, mas também o número de atividades físicas recreativas dentro e fora da escola

| Creditos: PixaBay

O aumento da intensidade das atividades esportivas, combinado com a cobrança por performance diária, está tornando as lesões por uso excessivo em crianças mais comuns. Essas lesões localizam-se principalmente na cartilagem epifisária. O termo amplo para essas lesões é a osteocondrose, também conhecida por osteocondrite, que se refere mais especificamente às condições inflamatórias do osso e da cartilagem.

A osteocondrose pode ser epifisária, fisária ou apofisária, dependendo do local afetado. A condição pode estar na forma primária deformante ou na forma dissecante. Embora não haja consenso sobre a etiologia da osteocondrose, múltiplos fatores parecem estar envolvidos: fatores vasculares, traumáticos ou mesmo microtraumáticos.

A maioria das lesões por excesso de uso envolve os membros inferiores, especialmente os joelhos, tornozelos e pés. Os mais típicos são a doença de Osgood-Schlatter (joelho) e a doença de Sever (calcâneo); em ambas as condições, os tendões permanecem relativamente encurtados durante os picos de crescimento, mas todas tem em comum: a sobrecarga.

Analisar a atividade esportiva de uma criança não é simplesmente uma questão de somar o número de horas gastas semanalmente em esportes organizados, mas também o número de atividades físicas recreativas dentro e fora da escola. Isso nos mostra que um certo número de crianças e adolescentes pode estar sobrecarregando-se fisicamente, o que pode resultar em lesões por excesso de uso no sistema musculoesquelético.

Além disso, tem havido uma diminuição geral nos dias de hoje em atividade física diária, como caminhar para a escola ou brincar com os amigos; essas atividades foram substituídas por atividades muito mais sedentárias, como assistir televisão ou jogar videogames. Isso leva a um nível de aptidão basal mais baixo em crianças que iniciam um esporte, aumentando ainda mais o risco de lesões por esforço excessivo.

Isso cria o ambiente perfeito para um aumento de lesões musculoesqueléticas por excesso de uso, vejo diariamente isso no consultório. É importante que compreendamos melhor esse problema para melhorar nossa compreensão do motivo pelo qual essas lesões ocorrem. O tratamento curativo não deve mais significar suspender todas as atividades esportivas até que a criança pare de crescer, mas deve ser adaptado caso a caso. O tratamento preventivo deve continuar sendo o principal objetivo para que as crianças possam retomar suas atividades físicas favoritas da forma mais rápida e completa possível sob condições ótimas de exercício.

 

Diagnóstico

A anamnese é essencial para fazer um diagnóstico. Acima de tudo, otimiza a prevenção e minimiza a recorrência de lesões por uso excessivo. A dor mecânica é o principal sinal de lesões por uso excessivo. Permite que as lesões sejam divididas em 4 etapas:

Estágio 1: dor após atividade física;

Estágio 2: dor durante a atividade física sem impacto na função (pode continuar participando das atividades);

Estágio 3: dor durante a atividade física que dura o dia todo e tem impacto na função (necessidade de diminuir ou mesmo interromper as atividades);

Estágio 4: dor durante todas as atividades físicas, até mesmo funções musculoesqueléticas básicas.

 

Prevenção

Mesmo que a criança e a família solicitem alívio da dor para que a criança possa continuar praticando esportes, é importante implementar o tratamento preventivo para evitar lesões repetidas ou crônicas. Fatores predisponentes à criança para o uso excessivo de lesões precisam ser identificados através da extensa anamnese.

Primeiro, é importante insistir em bons hábitos de vida. Os atletas adultos precisam ter hábitos impecáveis e não há razão para que o mesmo não se aplique a atletas infantis. Assim, uma dieta pobre, hidratação inadequada e falta de sono são fatores que devem ser levados em consideração. É importante, então, identificar o uso de equipamentos esportivos errados, por exemplo, chuteiras muito rígidas para o campo normal ou bolas de tênis que são muito difíceis para a idade da criança.

Em seguida, a quantidade e a qualidade da prática esportiva devem ser analisadas. Existe um amplo acordo sobre a regra de 10%, que afirma que a carga de trabalho não deve ser aumentada em mais de 10% por semana, a fim de permitir uma boa recuperação. Dependendo do esporte, isso significa que o tempo de treinamento, peso, distância ou velocidade não devem ser aumentados em mais de 10%. No que diz respeito à qualidade da prática esportiva, é importante envolver o técnico para analisar melhor a técnica esportiva da criança e quaisquer erros de desempenho.

O nível de condicionamento físico da criança também deve ser levado em consideração. A flexibilidade contribui grandemente para o desempenho atlético e a rigidez é um fator importante nas lesões por excesso de uso, que precisam ser combatidas durante toda a fase de crescimento rápido dos membros, mesmo quando a dor não está presente. Assim, é importante insistir em exercícios de alongamento. Todas as federações esportivas concordaram que o alongamento passivo deve ser evitado antes de uma sessão de treinos porque diminui o desempenho muscular. O alongamento passivo deve ser feito após as sessões de prática, mas não imediatamente, porque alongamentos passivos são alongamentos excêntricos que podem piorar as microlesões musculares que normalmente ocorrem durante a prática esportiva. Seria melhor organizar sessões dedicadas especificamente ao alongamento.

O estágio da puberdade da criança também deve ser levado em consideração. Lesões por uso excessivo podem ser precipitadas por pais ou treinadores que desconhecem a fragilidade da estrutura da cartilagem antes dos 12 anos. Na maioria dos casos, o treinamento para esportes coletivos é feito com crianças na mesma faixa etária. No entanto, esta é uma idade cronológica. Como a idade em que a puberdade começa varia muito, é compreensível que, quando a carga de trabalho seja a mesma para todos, seja um pouco pesada demais para alguns. Assim, mesmo que seja difícil na prática, o professor ou treinador deve estar ciente deste problema para melhor adaptar a carga de trabalho a cada criança.

Há também um consenso de que a especialização esportiva precoce deve ser evitada para que diferentes grupos musculares sejam trabalhados. Em qualquer caso, a especialização precoce não é garantia de sucesso esportivo, e até leva a um aumento no número de crianças que abandonam os esportes por volta dos 13 anos.

Finalmente, a criança precisa estar envolvida no manejo preventivo. A criança atleta deve aprender a ouvir seu corpo e expressar dor, o que pode permitir que a criança diminua a velocidade, mude ou pare o movimento doloroso antes que as lesões por uso excessivo se tornem crônicas. Mesmo que isso possa ser difícil para a criança fazer, a família deve estar envolvida. Os primeiros sinais de lesão por uso excessivo são fadiga e diminuição do desempenho, tanto em termos de qualidade quanto em quantidade.

 

Tratamento

O principal tratamento para essas lesões é a suspensão temporária das atividades atléticas, combinada com a fisioterapia e em alguns casos uso de órteses. A cirurgia pode ser realizada se o tratamento conservador falhar. É melhor, no entanto, tentar evitar essas lesões, analisando e corrigindo problemas com equipamentos esportivos, hábitos de vida, intensidade de treinamento e nível de atividade física da criança, e evitando a especialização prematura. A dor em crianças durante esportes não deve ser considerada normal. É um sinal de alerta de overtraining, que pode exigir que a atividade seja modificada, reduzida ou mesmo descontinuada, mesmo que provisoriamente.

 

Conclusão

As crianças podem obter benefícios físicos e psicológicos do esporte. Os esportes também desempenham um papel inegável na socialização. Embora a motivação da criança seja a primeira condição para praticar e praticar um esporte, a dor continua sendo o principal fator que limita o desempenho atlético. É somente sob essas condições que as crianças podem minimizar lesões por excesso de uso. O manejo dessas lesões não é apenas médico - também deve envolver a criança, a família e o técnico. Isso facilita o papel do médico e permite que as atividades sejam reduzidas antes de serem completamente proibidas.

 

Sobre a especialista

Ana Paula Simões é Professora Instrutora da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e Mestre em Medicina, Ortopedia e Traumatologia e Especialista em Medicina e Cirurgia do Pé e Tornozelo pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. É Membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia; da Associação Brasileira de Medicina e Cirurgia do Tornozelo e Pé, da Sociedade Brasileira de Artroscopia e Traumatologia do Esporte; e da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte. 

Deixe seu comentário!

O Jornal Rosa Choque não se responsabiliza pelos comentários aqui postados. A equipe reserva-se, desde já, o direito de excluir comentários e textos que julgar ofensivos, difamatórios, caluniosos, preconceituosos ou de alguma forma prejudiciais a terceiros. Textos de caráter promocional, inseridos sem a devida identificação do autor ou que sejam notadamente falsos, também poderão ser excluídos.

Lembre-se: A tentativa de clonar nomes e apelidos de outros usuários para emitir opiniões em nome de terceiros configura crime de falsidade ideológica. Você pode optar por assinar seu comentário com nome completo ou apelido. Valorize esse espaço democrático Agradecemos a participação!

Todos os campos marcados com é de preencimento obrigatório.