Jornal Rosa Choque
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Cuiabá - MT, 23-05-2019 às 15:14

Filhas que lutam para devolver a visão às mães

Levantamento conduzido pela Central da Catarata, maior central de agendamento de cirurgia de catarata do país, aponta que 64% das pessoas que buscam o negócio de impacto social são mulheres; dessas, 60% procuram ajuda para solucionar um problema ocular do

O brasileiro com mais de 50 anos que depende da rede pública de saúde aguarda, em média, 314 dias por uma avaliação de catarata. | Creditos: PixaBay

Filhas cuidando das mães. De acordo da Central da Catarata, 64% dos clientes que buscam por informações na maior central de agendamento de cirurgia de catarata do país são mulheres; dessas, 60% procuram uma solução para o problema ocular dos pais. Responsável por 51% dos casos de cegueira no mundo, a catarata – um processo natural de envelhecimento do cristalino e que pode ser reversível com a cirurgia – acomete, principalmente, a população idosa. Estimativas apontam que 5% da população acima de 60 de anos deverá ter catarata no decorrer de um ano.

Considerando que o Brasil já possui 30 milhões de idosos, isso representa uma demanda potencial de 1,5 milhão de cirurgias de catarata por ano. Entretanto, o volume de cirurgias realizadas é inferior à demanda. Para endereçar esse desafio, a Central da Catarata – negócio de impacto social que realiza cirurgias a preços mais baixos, aproveitando horários ociosos de hospitais oftalmológicos de referência – se tornou uma solução de acesso para a população de menor renda que não está sendo atendida pelo Sistema Único de Saúde e não conta com plano de saúde.

Maior sensibilidade à luz, visão embaçada, sensação de neblina nos olhos, ajuste constante no grau dos óculos e percepção que as cores estão desbotadas – esses são apenas alguns dos sintomas percebidos por pacientes com catarata. O brasileiro com mais de 50 anos que depende da rede pública de saúde aguarda, em média, 314 dias por uma avaliação de catarata. Na prática, quase um ano inteiro para verificar se há indicação para cirurgia, segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo.

Monalisa Pisani decidiu não esperar o tempo estimado pela rede pública para que a mãe, Gioconda Oddette Pisani (foto), de 83 anos, realizasse a cirurgia de catarata. “Quando falaram para gente o tempo de espera, tivemos que recorrer a outras soluções. A primeira delas foi pesquisar clínicas particulares, mas o valor ficava entre R$ 10 a 15 mil para a cirurgia em cada olho. Foi quando encontramos na internet a Central da Catarata e vimos a diferença absurda no valor. A primeira coisa que minha mãe falou, ao sair da clínica, foi que agora podia ver as estrelas no céu”, relembra.

Um outro caso que consta no levantamento da Central da Catarata é o de Verginia Piva de Andrade. Aos 83 anos, a aposentada – moradora de Osasco, São Paulo – executa com primor a arte de bordar tecidos aprendida ainda criança.  A precisão das agulhas e o olhar cuidadoso dela, dão vida e cor a paninhos de prato, toalhas de banho e mesa e fraldas de bebê. São flores, frutas, bichinhos e uma variedade de desenhos que servem de inspiração. Os bordados sempre chamaram atenção dos amigos e vizinhos; com o delicado ofício, conquistou uma clientela para vender o trabalho artesanal e ganhar uma renda extra que complementa o salário mínimo que recebe da aposentadoria. Contudo, em 2017, a aposentada se viu desmotivada a exercer a atividade, que exigia plena visão. Foi aí que entrou em ação a filha Nilva Piva.

“Minha mãe sempre foi muito ativa e a dificuldade em enxergar impedia que continuasse a atividade. Por um tempo, mesmo sem ver direito, ela insistia e usava apenas as agulhas de crochê, que são maiores. O ponto saia errado e ela falava que estava envelhecendo dia a dia. Era muito triste vê-la naquela situação”, relata Nilva. Com a venda dos bordados, a aposentada chega a ganhar em média R$ 600 mensais. O valor fez falta no orçamento e a família buscou pelo Sistema Único de Saúde (SUS) o tratamento, mas a demora na fila – a previsão era de um ano nessa lista de espera – obrigou a família a buscar atendimento particular para devolver o prazer de bordar de Verginia. Após a cirurgia feita na Central da Catarata, a aposentada recuperou a visão; o ofício que complementa a renda; e a alegria de viver.

 

Vencendo distâncias: da Bahia a São Paulo

São 1.967 km e 32 h de viagem de Biritinga, interior da Bahia à cidade de São Paulo. A possibilidade de voltar a enxergar, com segurança, a preço acessível e sob cuidados da filha, motivou Maria das Graças Souza, 65 anos a enfrentar o longo trajeto para realizar cirurgia de catarata. "A cidade que minha mãe mora é pequena, o hospital é indicado apenas para emergências, seria tudo mais difícil para sua locomoção durante os exames e cuidados na cirurgia. Aqui em São Paulo, pude cuidar mais de perto", conta a filha Marlene Souza. Durante um exame ocular, a aposentada descobriu que estava com a diabetes elevada. "A glicose da minha mãe estava super alta e foi somente no consultório oftalmológico que descobrimos. Agora, ela tem cuidado melhor da alimentação e da saúde e a doença está controlada”, afirma a filha.

Sobre a cirurgia de catarata, Marlene Souza revela que assim que a mãe saiu da sala voltou a enxergar. "Parecia uma criança testando o olho. Ela piscava sem acreditar que estava voltando a enxergar melhor as cores, as formas, tudo", afirma.

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