Jornal Rosa Choque
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Cuiabá - MT, 10-12-2018 às 14:59

Você sabe o que é feminismo?

Um olhar mais respeitoso em relação as mulheres, a exemplo das brasileiras Nísia Floresta Augusta e Bertha Lutz, da francesa Olímpia de Gouges e da americana Emily Davison é o que se espera

Bertha Lutz, no avião do qual, em 1927, foi lançado panfletos de propaganda pelo voto feminino. Foi ela que cinco anos antes, em 1922, organizou o I Congresso Feminista do Brasil | Creditos: Arquivo Nacional - BR_RJANRIO_Q0_ADM_CPA_VFE_FOT_0007_001

Há quase 18 anos venho militando em movimentos ligados a defesa dos direitos da mulher, em ONG Feminina e também Conselhos, em níveis local e nacional,  eu tenho percebido, nos últimos anos e com mais ênfase nas eleições de 2018, que nem todas as mulheres que estão pleiteando ingressar na política conhecem as lutas históricas das  feministas, e preferem apontar que o feminismo  sugere práticas que não são do bem e que em nada acrescentam a nossa trajetória de lutas. Talvez se esqueceram, ou nem saibam  que antigamente as mulheres eram até mesmo julgadas incapazes, tinham  a ausência total de direitos e de agirem conforme suas próprias vontades, ficando inclusive em cárceres privados.

Ao meu ver, atos públicos de candidatas, ou candidatos que em suas manifestações dizem: “fora feministas” , colocam o  feminismo como um movimento sem valor, ou maléfico para a família e sociedade. Isso ao meu ver foi  um retrocesso, e não questiono se por falta de conhecimento, ou por ser mesmo radicalismo exacerbado contra lutas históricas, que ajudaram a  colocar as mulheres num patamar mais elevado em seus direitos e conquistas.

Vou citar apenas dois fatos, dentre os inúmeros, da minha trajetória, que me fazem  sentir bem a vontade de defender o FEMINISMO autêntico: Em 2005, pelos trabalhos que eu desenvolvi nas lutas por igualdade de direitos femininos, recebi no Congresso Nacional, o Prêmio Mulher Cidadã Bertha Lutz, que é considerado o maior da cidadania feminina no país, entregue anualmente pelo Senado Federal, no mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, para apenas 5 mulheres, uma de cada região do Brasil. O outro fato refere-se ao ano de  2011, quando na qualidade de conselheira, representante do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher-CNDM, fui  integrando a delegação brasileira chefiada pela ministra Iriny Lopes à  55ª Sessão da Comissão sobre a Condição da Mulher (CSW), na Sede da Organização das Nações Unidas/ ONU em Nova York. Portanto, uma das maiores reuniões anuais de lideranças mundiais, ONGs, empresas, parceiras e parceiros das Nações Unidas e ativistas de todo o mundo, para discutir a situação dos direitos das mulheres e o empoderamento de todas as mulheres e meninas em todas as partes do mundo.

Quero deixar bem claro que eu não tenho qualquer pretensão de criticar qualquer partido político que condena o feminismo. Tenho MBA em Terceiro Setor e Políticas Públicas, mas não sou militante, ou ligada a nenhum movimento político partidário. O meu objetivo é difundir, como contribuição educativa, apenas  textos e informações sobre o assunto e dizer o quanto Bertha Lutz, no Brasil e outras mulheres ao redor do mundo contribuíram para a cidadania feminina e o empoderamento da mulher, através de suas lutas, a exemplo: a mulher ter direito de votar e depois de também ser igualmente votada; a mulher ter direito de estudar, trabalhar e ter seu empreendimento, em qualquer atividade que escolher;  ter seus direitos respeitados no sentido de igualdade salarial e de não sofrer violência, ou assédio de qualquer ordem.

 

Nísia Floresta

Quando se fala em feminismo, não se quer dizer que a mulher integra um movimento contrário do machismo,  pregando a sua superioridade em relação ao homem, mas sim sobre igualdade de direitos, contra a dominação de um gênero sobre outro. O movimento no Brasil não foi deflagrado neste século ou no século passado, surgiu no século 19 e foi ligado à educação, direito ao sufrágio  e abolição dos escravos. A escritora potiguar Nísia Floresta Brasileira Augusta (foto), pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto, é considerada percursora dos movimentos feministas no Brasil. Além de ter contribuído com a educação de mulheres, longe da perspectiva das escolas patriarcais que só ensinavam boas maneiras e corte e costura, sua obra de 1832, há 100 anos antes do sufrágio feminino, com o título   “Direitos das mulheres e injustiça dos homens”  é considerada a primeira publicação a respeito do feminismo no Brasil.

O que é feminismo?

O feminismo é um movimento social que, segundo os historiadores, surgiu após a Revolução Francesa e que se fortaleceu na Inglaterra, durante o século XIX, e depois nos Estados Unidos, no começo do século XX. Esse movimento luta pela igualdade de condições entre homens e mulheres, no sentido de que ambos tenham os mesmos direitos e as mesmas oportunidades.

É importante pontuar que feminismo não é o oposto de machismo, pois o machismo é uma construção social que promove e justifica atos de agressão e opressão contra as mulheres. Já o feminismo, conforme mencionamos, é o movimento social que luta contra as manifestações do machismo na sociedade. Assim, o objetivo final do feminismo é construir uma sociedade que ofereça igualdade de condições entre os dois gêneros.

Raízes do feminismo

As origens do movimento feminista remontam ao período das revoluções liberais, das quais o grande destaque foi a Revolução Francesa, influenciada pelos ideais do Iluminismo. Desse período, pode-se destacar a ação de Olímpia de Gouges, que, durante os anos iniciais da Revolução, lutou pela emancipação dos direitos das mulheres, defendendo, principalmente, o direito das mulheres de participar ativamente da política.

Criticou de maneira contundente a atuação dos revolucionários, que, apesar de defenderem causas de “liberdade” e “igualdade”, ainda mantinham a mulher subjugada ao ambiente doméstico, não as permitindo adentrar a política. Em 1791, lançou a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã em contraposição à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, na qual criticava as desigualdades existentes entre os gêneros.

Olímpia de Gouges era girondina e, por suas críticas ao governo imposto pelos jacobinos na época do Terror, foi presa, julgada e sentenciada à morte. Olímpia foi guilhotinada no dia 3 de novembro de 1793, e os relatos afirmam que, ao subir no cadafalso para sua execução, Olímpia soltou a seguinte frase: “A mulher tem o direito de subir ao cadafalso, ela deve ter igualmente o direito de subir à tribuna.”

O movimento feminista ganhou força de fato na Inglaterra ao longo do século XIX, passando depois para os Estados Unidos a partir do século XX. No caso da Inglaterra, o movimento feminista concentrou-se principalmente na luta pela igualdade de condições de trabalho nas indústrias inglesas. As mulheres exigiam uma carga de trabalho e um salário iguais aos dos homens.

No começo do século XX, o movimento espalhou-se para os Estados Unidos e teve como principal bandeira de luta a questão sufragista, ou seja, o direito ao voto. Do movimento sufragista no Reino Unido, destacam-se os nomes de Emmeline Pankhurst e de Emily Davison. A segunda ficou particularmente conhecida por ter se jogado em frente ao cavalo do Rei, o que causou a sua morte em 1913.

No caso do Brasil, o movimento sufragista foi encabeçado por Bertha Lutz, que liderava a Federação Brasileira para o Progresso Feminino (FBPF). Esse movimento feminista encabeçado por Bertha Lutz é atualmente questionado pela sua conduta vista como conservadora. No entanto, a atuação do sufragismo no Brasil fez com que as mulheres tivessem o direito ao voto decretado em 1932.

A partir da década de 1960, o feminismo iniciou uma nova fase, muito influenciada pelo contexto de agitação social com as jornadas de 1968 e o surgimento do movimento hippie. Nesse período, o movimento feminista ganhou força e passou a defender a ideia de que as opressões e violências cometidas no âmbito privado estão relacionadas a uma conjuntura de opressão política. Assim, para reforçar a defesa contra as violências privadas, é necessário atacar a opressão como um todo no âmbito político.

Da década de 1990 em diante, uma nova fase do feminismo iniciou-se e foi nomeada de “terceira onda do feminismo”. A partir desse período, tratou-se de discutir algumas visões imprecisas do feminismo da segunda onda (década de 1960) e o debate foi ampliado com o feminismo, a partir de Organizações Não Governamentais (ONGs), podendo ter acesso a comunidades de mulheres carentes e podendo exercer maior pressão sobre o Estado para o desenvolvimento de políticas em defesa das mulheres.

Desafios do feminismo atualmente

Atualmente no Brasil, o feminismo segue discutindo questões que afetam as mulheres de uma forma geral. Primeiramente, há a desvalorização da trabalhadora em comparação aos homens, sobretudo pelo fato de que, segundo pesquisas feitas pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), as mulheres ganham em média 30% menos que os homens para realizar a mesma função

Além disso, há a questão do assédio e violência contra a mulher, uma vez que, segundo estudos conduzidos pela Secretaria de Políticas para Mulheres do Governo Federal, uma mulher é estuprada no Brasil a cada 10 minutos e, a cada 90 minutos, uma mulher é assassinada no Brasil. As mulheres estão suscetíveis a esse tipo de violência de gênero em diferentes locais, seja na rua, seja também em suas famílias.

O grande esforço do movimento feminista no caso brasileiro é para lutar contra essas violências e para que o governo crie políticas públicas que combatam isso e que promovam o bem-estar das mulheres na sociedade. Um dos grandes marcos nesse sentido foi o decreto da Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006, também conhecida como Lei Maria da Penha.

O texto que escolhi para ensinar sobre feminismo é de  Daniel Neves - Graduado em História, o que mostra que homens também são engajados na disseminação do tema, estudado por sua relevância.Na foto ao lado, um dos encontros que tive com lideranças femininas e Maria da Penha, no Rio de Janeiro.

Veja em   http://www.arquivonacional.gov.br/br/difusao/arquivo-na-historia/908-mulheres-na-historia-bertha-lutz.html0 outras informações sobre a história de Bertha Lutz, escrita por Mirian Lopes Cardia, que fala da zoóloga de profissão, que em 1919 tornou-se secretária do Museu Nacional do Rio de Janeiro. O fato, segundo ela, teve grande repercussão, considerando-se que na época o acesso ao funcionalismo público ainda era vedado às mulheres. Em 1922, foi lembrado que Bertha representou o Brasil na assembléia geral da Liga das Mulheres Eleitoras, realizada nos Estados Unidos, sendo eleita vice-presidente da Sociedade Pan-Americana. De volta ao Brasil, fundou a Federação para o Progresso Feminino, iniciando a luta pelo direito de voto para as mulheres brasileiras. Ainda em 1922, como delegada do Museu Nacional ao Congresso de Educação, garantiu ingresso das meninas no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. 

Que as mulheres possam ingressar na política, no Brasil e no mundo, não repetindo histórias machistas, e que tenham um olhar mais respeitoso em relação às mulheres, a exemplo de Bertha Lutz, Olímpia de Gouges e  Emily Davison. O feminismo da forma com que foi difundido em campanhas eleitorais,com informações fake, inclusive vídeos com procedências duvidosas, visando uma corrente anti-feminista,  inclusive por próprias mulheres candidatas, envergonham o país. Por mais que cada pessoa tenha sua liberdade de expressão, tais posicionamentos, no meu entendimento, colocam na vala comum um dos mais relevantes movimentos sociais do mundo. É preciso saber separar o joio e trigo, como diz uma parábola cristã.  

 

Sueli Batista

Jornalista, empresária,empreendedora social e master coach

 

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Isabel Cristina Richa de Morais . 08-10-2018 23:26hs

Muito boa matéria Bertha Lutz trouxe para o Brasil em 1947 o Soroptimist International uma organização de mulheres profissionais que trabalham de forma voluntária para melhorar a vida de mulheres e meninas no mundo Hoje o Brasil Região pertence a Soroptimist International of the Americas. Com 26 clubes de serviço que por meio dos programas Sonhos ajudam mulheres e meninas

Sonia Loyola . 09-10-2018 07:15hs

Excelente artigo, o melhor que eu vi sobre o assunto sem ser piegas sem ter viés político partidário

Sonia Loyol . 09-10-2018 07:18hs

Excelente artigo.Um dos meu que li sobre o assunto. Sem ser piegas bem ter viés político partidário.

Liza fernandes prado . 09-10-2018 09:02hs

Parabéns