Jornal Rosa Choque
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Cuiabá - MT, 10-12-2018 às 15:17

Mulheres refugiadas ganham voz

Jornalista e escritora Lucia Helena Issa viveu 25 dias com mulheres refugiadas e conta suas histórias

Lucia Helena Issa, à esquerda, luta pelos direitos das mulheres em regiões de conflito. | Creditos: Divulgação

O mundo inteiro assiste atônico o drama de milhares de refugiados. A guerra na Síria, por exemplo, já matou mais de 480 mil pessoas, sendo 100 mil delas crianças, e deixou cerca de 8 milhões de refugiados, no país que antes viviam 23 milhões de pessoas. Movida pela imensa dor e pelas perdas que viu nos campos de refugiados, a jornalista e correspondente de guerra internacional Lúcia Helena Issa decidiu voluntariamente voltar ao campo de refugiados da Síria para viver durante 25 dias como as mulheres refugiadas vivem. Comeu a mesma comida, dormiu em barracas da ONU, sentiu a dor, as perdas e os sonhos de paz.

Essa experiência resultou na elaboração de um projeto de ajuda humanitária que contou com a participação de muitos amigos cariocas que abraçaram a ideia e doaram dinheiro para a compra de material escolar e brinquedos para quase 300 crianças dos Campos de Zahle, na fronteira entre Síria e Líbano, onde ela ficou por várias semanas. Segundo Lucia, isso só foi possível porque todos acreditaram que poderiam ajudar e viram neles a própria humanidade refletida. Durante essas semanas em Zahle, ela foi a única cristã no campo de refugiados em meio a três mil muçulmanos, recebida com imenso amor, respeito e gratidão por todas as pessoas.

“Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida. Vi cenas que ficarão para sempre tatuadas em mim, assim como em milhares de mulheres e crianças mutiladas. Foram cerca de  1,5 milhão de pessoas mutiladas, sendo 86 mil que perderam um membro do corpo. Com a ajuda desses brasileiros pude dar um pouco de esperança e paz às crianças”, diz Lucia, que também foi ao Oriente Médio para escrever o livro “Filhas da Esperança”, que pretende lançar em dois meses sobre as mulheres palestinas que vivem há décadas em campos de refugiados.

Por conta desse trabalho humanitário, a jornalista recebeu diversos prêmios, entre eles a Medalha Marielle Franco, no dia 14 de setembro, outorgada pela cidade de Salvador e pelo grupo Olodum. Em outubro, ela ganhará também, em Paris, um prêmio como Embaixadora da Paz, concedido pela Divine Académie Française des Arts Lettres et Culture, por seu trabalho humanitário. Em maio, recebeu o Prêmio 'Estrella del Sur', em Montevidéu, no Uruguai, concedido a escritores e artistas da América Latina que desenvolvem atividades em prol dos direitos humanos, da paz e igualdade social.

A jornalista é autora também do livro "Quando amanhece na Sicília” sobre a luta das mulheres sicilianas contra a máfia na Itália. O livro foi premiado no Brasil e em Portugal. 

Perguntada sobre o que mais a impactou nos campos de refugiados, ela revela que foi a dor das pessoas, sobretudo das mulheres, que além de toda dificuldade do local e de alimentação, têm seus corpos usados como arma e troféu dessa guerra. “Já em 2001, na Guerra da Iugoslávia, havia reportado isso: estupros, mulheres usadas como escravas sexuais. E na Síria isso se repetiu entre facções rivais. Ouvi depoimentos que me dilaceraram e que jamais esquecerei”, completa Lucia.

Ela conta que também a impactou a forma como as mulheres trabalhavam o processo de construção da paz. “Elas criaram a ‘Tenda do perdão’, que difundia o perdão e convocava outras mulheres, de cidades inimigas para conversar, promover ações em conjunto e, simbolicamente, dizer “eu te perdoo”. Uma cristã e uma muçulmana coordenam esse projeto e seu ideal é evidenciar o que nos une, e não o que nos separa”, afirma a jornalista, completando com a frase do escritor Eduardo Galeano que dizia que “não podemos deixar a reconstrução da paz nas mãos dos que fabricam o ódio e as guerras”.

“Vale ressaltar que a guerra da Síria não é entre cristãos e muçulmanos, mas entre cidades diferentes e facções políticas diferentes, com os EUA armando pesadamente um lado. Os Estados Unidos e outros países ocidentais forneceram armas e apoio para o que consideravam ser "rebeldes moderados" e hoje está provado que eram terroristas e que mataram milhares de mulheres e crianças. Os principais apoiadores da Síria são a Rússia e o Irã, enquanto os Estados Unidos e a Arábia Saudita, um dos países mais fechados do Oriente Médio, sempre apoiaram os opositores, na tentativa de derrubar Assad” afirma a jornalista.

Segundo a escritora e jornalista, não existem "guerras humanitárias" ou "guerras boas", pois as guerras são movidas apenas por interesses econômicos, por petróleo, gás ou pelo domínio completo de um território.

 

Sobre Lucia Helena Issa

A jornalista nasceu em Guaratinguetá, em São Paulo, mas hoje vive no Rio de Janeiro, para onde se mudou em 2013 para trabalhar como correspondente internacional. É graduada em jornalismo e fez pós-graduação em Roma, na Itália, onde acabou vivendo por seis anos.  Em 1998 começou a trabalhar como colaboradora especial da Folha de São Paulo em Roma, onde morou por seis anos. Além de outras premiações pelo mundo, publicou alguns livros sobre os direitos das mulheres que buscam e lutam por respeito e dignidade. "Ao longo da minha carreira, procurei desmistificar o ódio alimentado contra os povos. Minha luta hoje é dar voz às mulheres refugiadas para que não sejam mais silenciadas”, conclui Lucia.

Lúcia Helena Issa é escritora, pacifista, tem lutado para que as armas não se proliferem novamente no Brasil depois de tudo o que testemunhou cobrindo o fim da guerra da  Iugoslávia em 2001, o conflito Israel-Palestina nos últimos quatro anos e a Guerra da Síria em 2017. Lucia revela que, segundo ela, a reconstrução da paz tanto na Síria quanto na Palestina tem um rosto feminino e passa pelas mulheres.

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LUCIA HELENA ISSA . 23-09-2018 12:27hs

Só tenho a agradecer a vocês, jornalistas e amigas do Portal Rosa Choque e a todas as leitoras que têm me ajudado a dar voz às mulheres refugiadas e a todas nós, mulheres!

Anderson Castedo . 23-09-2018 12:46hs

Mais uma frente para a visibilidade e para a voz de nossos irmãos e irmãs sírios. Um orgulho para nós brasileiros que seja uma brasileira a porta-voz deste povo sofrido. Parabéns ao portal Rosa choque pela matéria; parabéns, força e altivez à jornalista Lúcia Issa.

Antonio Jorge Abdalla . 23-09-2018 15:37hs

Uma realidade realmente comovente! Parabéns pela coragem e iniciativa. Fica a nossa esperança de, um dia, termos um mundo mais justo. Abraços!

Yone Kegler . 23-09-2018 20:33hs

Sou fã e amiga vittual, da Lucia!Ela merece todos os prêmios! A matéria dá medo! Medo de saber que em algum lugar da Terra tem seres humanos vivendo neste pesadelo sem fim! Nesta guerra insana e que o mundo não toma providências pra acabar com isto de uma vez!

ANGELI Rose . 24-09-2018 06:17hs

É uma história de vida fascinante.Alem disso, tive o prazer de conhece-la recentemente na entrega da Medalha MARIELLE FRANCO em Salvador, Casa do Olodum .Lucia fez um discurso emocionante como mestra de cerimônia , em prol da paz e da conscientização do empoderamento feminino.Parabéns, Lucia Issa!

ANGELI Rose . 24-09-2018 06:19hs

É uma história de vida fascinante.Alem disso, tive o prazer de conhece-la recentemente na entrega da Medalha MARIELLE FRANCO em Salvador, Casa do Olodum .Lucia fez um discurso emocionante como mestra de cerimônia , em prol da paz e da conscientização do empoderamento feminino.Parabéns, Lucia Issa!

ANGELI Rose . 24-09-2018 06:20hs

É uma história de vida fascinante.Alem disso, tive o prazer de conhece-la recentemente na entrega da Medalha MARIELLE FRANCO em Salvador, Casa do Olodum .Lucia fez um discurso emocionante como mestra de cerimônia , em prol da paz e da conscientização do empoderamento feminino.Parabéns, Lucia Issa!

ANGELI Rose . 24-09-2018 06:22hs

É uma história de vida fascinante.Alem disso, tive o prazer de conhece-la recentemente na entrega da Medalha MARIELLE FRANCO em Salvador, Casa do Olodum .Lucia fez um discurso emocionante como mestra de cerimônia , em prol da paz e da conscientização do empoderamento feminino.Parabéns, Lucia Issa!

ANGELI Rose . 24-09-2018 06:22hs

É uma história de vida fascinante.Alem disso, tive o prazer de conhece-la recentemente na entrega da Medalha MARIELLE FRANCO em Salvador, Casa do Olodum .Lucia fez um discurso emocionante como mestra de cerimônia , em prol da paz e da conscientização do empoderamento feminino.Parabéns, Lucia Issa!

Márcia Santos . 24-09-2018 15:21hs

É importante termos uma pessoa como Lúcia Helena dando voz a essas pessoas tão sofridas, é bonito e emocionante. Parabéns Lúcia pelo trabalho e que outros pessoas sigam seu exemplo.

Márcia Santos . 24-09-2018 15:23hs

É importante termos uma pessoa como Lúcia Helena dando voz a essas pessoas tão sofridas, é bonito e emocionante. Parabéns Lúcia pelo trabalho e que outros pessoas sigam seu exemplo.