Jornal Rosa Choque
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Cuiabá - MT, 18-11-2018 às 19:52

Fotógrafa suíço-brasileira e vítima do nazismo ganha prêmio

Claudia Andujar é uma das mais importantes representantes da fotografia artístico-documental na América do Sul. Depois de sua fuga do nazismo, ela optou por uma carreira como fotojornalista, através da qual se envolveu no combate à ditadura e à violência.

Claudia Andujar é uma das mais importantes representantes da fotografia artístico-documental na América do Sul. | Creditos: Danila Bustamante

Claudia Andujar é uma das mais importantes representantes da fotografia artístico-documental na América do Sul. Depois de sua fuga do nazismo, ela optou por uma carreira como fotojornalista, através da qual se envolveu no combate à ditadura e à violência. No contexto de seu engajamento pela proteção dos Yanomami, o maior povo indígena do Brasil, surgiram mais de 60 mil fotografias, feitas a partir dos anos 1970. Suas impressionantes séries de imagens são ao mesmo tempo artísticas e políticas: elas compõem um panorama do Brasil que oscila entre a cidade e a natureza e oferecem uma visão íntima e realista da vida dos Yanomami. Artista e ativista, Andujar é até hoje, aos 86 anos de idade, uma voz importante na América do Sul – também porque a situação no Brasil não a deixa descansar.

Nascida em 1931 na Suíça, passou a infância na Romênia e na Hungria até ser obrigada a fugir, em companhia da mãe, da perseguição pelo regime nazista. Seu pai, um judeu húngaro, e boa parte de seus parentes morreram em 1944 no campo de concentração de Dachau. Em 1945, Andujar emigrou para os EUA, onde passou a viver com um tio. Lá começou a estudar Humanidades e teve seus primeiros contatos com a fotografia. Seus primeiros reconhecimentos como fotojornalista aconteceram em Nova York, com publicações para a revista “Life” e para o “New York Times”. Também o Museu de Arte Moderna (MoMA) acolheu fotografias suas em seu acervo. Em 1955, ela seguiu, afinal, ao encontro de sua mãe, que havia emigrado para São Paulo.

Enquanto Claudia Andujar não sabia falar português, a câmera era sua melhor forma de tradução e também um meio importante de documentar e disseminar o protesto contra a terrível situação política, a violência e a opressão no Brasil. Assim, ela fotografou nos anos 1960, por exemplo, pouco antes do Golpe Militar, as católicas Marchas da Família com Deus pela Liberdade, contra o então presidente João Goulart. Andujar não se deixava perturbar pelo fato de a ditadura estar temporariamente prejudicando também sua própria atuação artística.

A maior influência sobre sua vida e atuação artística se deu através do encontro com os Yanomami, ameaçados pela destruição do espaço no qual viviam em função de interesses econômicos. Em 1971, Andujar viajou pela primeira vez para a região amazônica como fotógrafa da revista “Realidade”, tendo ficado fascinada com a forma de vida dos Yanomami. Ela passou a se distanciar cada vez mais do fotojornalismo para se dedicar a seu projeto de vida: a proteção dos Yanomami. Entre 1971 e 1978, Andujar viveu com eles na Amazônia, até que o governo militar a expulsou de lá. Depois disso, ela fundou, junto com o missionário Carlo Zacquini, o antropólogo Bruce Albert e outros ativistas, a Comissão Pró-Yanomami – uma ONG que se empenhou pela criação de um parque para os Yanomami e para a natureza que os cercava. Foi também em função desse empenho que essa região da Amazônia foi declarada, em 1992, área de proteção ambiental.

A convivência com o povo indígena fez com que a fotógrafa produzisse, nos anos 1980, uma das séries mais importantes de sua trajetória, “Marcados”. Os retratos em preto e branco dos Yanomami foram feitos por Andujar durante uma campanha de vacinação destinada a melhorar as condições de saúde daquele povo. Ao lado de dois médicos, ela viajou de aldeia em aldeia, documentando com sua câmera o estado de saúde das pessoas. Como os Yanomami não possuem nomes próprios no sentido europeu, os fotografados eram marcados com números para serem depois reconhecidos em suas fichas de saúde. O controverso método utilizado pelos médicos para a marcação passava à primeira vista a sensação de indignidade, despertando lembranças do campo de concentração. No entanto, Andujar não condenou o método e até mesmo o legitimou: sua intenção era ajudar as pessoas. Para cada retrato, ela levava até uma hora, tentando, em cada fotografia, extrair fragmentos de uma identidade e da história de vida de cada um. Pois aquelas pessoas, ao contrário do que ocorreu nos campos de concentração, não estavam marcadas para morrer, mas sim “marcadas para viver”.

Claudia Andujar ganhou bolsas da Fundação Guggenheim (1972/1974), bem como da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Em 1976, sua obra foi pela primeira vez exposta como “arte brasileira” pelo Museu de Arte Contemporânea (MAC) da Universidade de São Paulo (USP). Suas fotografias fizeram parte da Bienal de São Paulo de 1998, bem como da Foto España, em 1999, em Madri. Em 2005, sua obra completa foi exposta na Pinacoteca do Estado de São Paulo; em 2015, no Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro. Em 2015, o Instituto Inhotim, nas proximidades de Belo Horizonte, inaugurou uma galeria permanente dedicada a Andujar. Em 2017, a artista teve sua primeira exposição individual na Alemanha no Museu de Arte Moderna de Frankfurt (MMK): “Claudia Andujar. Amanhã não pode ser ontem”. A mostra foi parte do projeto “Episódios do Sul” do Goethe-Institut Brasil. No contexto deste projeto, o Goethe-Institut propõe, desde 2015, debates artísticos e científicos que discutem criticamente as ideias estereotipadas a respeito do “Sul”, a fim de desenvolver pontos de vista novos e individuais sobre o assunto. A perspectiva de Claudia Andujar, bem como sua expressão através das fotografias, têm um significado especial, por significar um olhar já obrigado a suportar a ditadura, a violência e o genocídio.

 

Citações sobre Claudia Andujar

“O fato de Claudia Andujar marcar sua própria posição na imagem, ao inscrever nela a perspectiva da câmera, distancia suas fotografias das convenções documentais da época. Suas imagens são subjetivas, partidárias, presentes”. (Catrin Lorch, Süddeutsche Zeitung)

“A mostra no MMK é testemunho de uma tendência, visível há muitos anos, de aproximar novamente a arte da política, colocando no centro posicionamentos que não expressam, por si próprios, nenhuma pretensão estética. O fato de que eles, mesmo assim, podem ter um apelo estético único e irrefutável fica absolutamente provado pela mostra de Claudia Andujar”. (Michael Hierholzer, Frankfurter Allgemeine Zeitung, sobre a exposição “Claudia Andujar. Amanhã não pode ser ontem”, no Museu de Arte Moderna de Frankfurt)

“Um pavilhão só para ela no Parque Inhotim, onde arte, natureza e arquitetura encontram-se harmoniosamente, é um bom lugar para seu legado. É um lugar em que sua arte nega a ideia de um mundo imutável. É um lugar que afirma que toda iniciativa humana e todo ato histórico deriva do ciclo subversivo daquilo que não foi ainda alcançado. Resumindo em uma frase: a visão da igualdade entre as pessoas não está obstruída. A utopia acaba de ganhar, no Inhotim, novos horários de abertura”. (Frank Steinhofer, Dare Magazin)

 

 

Medalhas Goethe

As Medalhas Goethe de 2018 vão para os diretores colombianos de teatro Heidi e Rolf Abderhalden, do coletivo Mapa Teatro; para a fotógrafa documental e ativista dos direitos humanos suíço-brasileira Claudia Andujar; e para o compositor e regente húngaro Péter Eötvös. O Goethe-Institut atribui a condecoração da República Federal da Alemanha, todos os anos, a personalidades que tenham se empenhado especialmente em prol do intercâmbio cultural internacional. No dia 28 de agosto de 2018, Klaus-Dieter Lehmann, presidente do Goethe-Institut, entregará os prêmios no Residenzschloss Weimar. Os discursos serão feitos pelo autor teatral e ensaísta Deniz Utlu, pelo antropólogo e ativista Stephen Corry e pelo escritor e dramaturgo Albert Ostermaier.

Neste ano de 2018, as Medalhas Goethe são dedicadas ao lema “Uma vida depois da catástrofe”. Com Heidi e Rolf Abderhalden, do Mapa Teatro, Claudia Andujar e Péter Eötvös, serão premiadas quatro personalidades que representam exemplarmente uma conduta construtiva frente a rupturas e cesuras ameaçadoras da existência, tanto na vida pessoal quanto pública. Todos eles empenharam-se por um recomeço depois de uma “catástrofe” – seja depois de uma guerra, de uma derrocada política ou de destruições ambientais. As peças sócio-documentais do coletivo Mapa Teatro debruçam-se de forma radical, por meios experimentais performáticos, sobre os entrelaçamentos entre política, sociedade, violência e revolução na sociedade colombiana. Elas abordam tanto a dissolução de um bairro inteiro de Bogotá, quanto as consequências da violência durante a guerra civil na Colômbia. A fotógrafa documental suíço-brasileira Claudia Andujar empenha-se, desde os anos 1970, pelo povo indígena Yanomami, que vive na região amazônica. Sem sua atuação incansável, não apenas com a câmera, o lugar onde vivem os Yanomami talvez até hoje não tivesse sido transformado em área de proteção ambiental. Com suas composições e sua interpretação de obras de outros músicos contemporâneos, o compositor e regente húngaro Péter Eötvös contribuiu durante a Guerra Fria, e também depois da queda do Muro de Berlim, para o desenvolvimento de uma cultura musical europeia comum, exercendo até hoje influência sobre a mesma.

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