Jornal Rosa Choque
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Cuiabá - MT, 22-08-2018 às 02:56

Misofonia: será que você tem?

A Misofonia só foi reconhecida pela medicina convencional em 2000. A síndrome, relativamente nova, é definida por sensibilidade a sons específicos e repetitivos

| Creditos: PixaBay

A Misofonia, ou Síndrome da Sensibilidade Seletiva a Sons, é a aversão a sons bem específicos, de volume baixo e repetitivos.

Ela representa um problema novo, que só recebeu nome no ano 2000. Os sintomas começam na infância ou na adolescência. Como os pais não entendem, esses jovens são considerados anti-sociais, chatos e ranzinzas. Isso parece frescura, mas não é!

 

Misofonia provoca nas pessoas:

1 - uma reação emocional negativa (raiva, ódio, irritabilidade, nojo) que é forte, rápida, incontrolável e desproporcional quando esses sons estão presentes. Ex: sons feitos com a boca (mastigar e deglutir alimentos, mascar chiclete, tossir, pigarrear, estalar lábios, assoviar, tomar sopa), com o nariz (respiração ruidosa ou ofegante, soar o nariz, roncar), e com as mãos e os pés (digitar, clicar caneta, usar talheres, tamborilar, mexer chaves, abrir papel de bala/pipoca, arrastar chinelo, andar de salto alto). Algumas vezes, latidos, miados e pios também incomodam bastante.

 

2 - dificuldade de relacionamento familiar, profissional e social, que resultam em isolamento da pessoa.

 

A Misofonia faz parte da quadrilha do ouvido

Um lado interessante da Misofonia, que é a aversão a sons baixos e repetitivos, é que ela faz parte da QUADRILHA do ouvido, ou seja, ela raramente aparece sozinha. Conheça esses acompanhantes:

- hiperacusia: é o incômodo com o VOLUME dos sons (ex: TV, música, vozes etc). 

- fonofobia: é o MEDO de se expor a sons porque se podem prejudicar os ouvidos.

- zumbido: é o som do SILÊNCIO, que algumas pessoas percebem antes de dormir ou o dia todo

Nossa pesquisa de 2016 mostrou que as pessoas com Misofonia também apresentaram, na opinião delas, os seguintes problemas (em ordem decrescente): ansiedade, zumbido, transtorno obsessivo compulsivo, hiperacusia e perda auditiva.

Existe uma tendência de rotular a Misofonia como um problema psiquiatrico, mas nós discordamos por causa da quadrilha do ouvido.

 

A Misofonia é genética?

Conhecemos uma família interessantíssima para pensar sobre a hereditariedade da Misofonia!

Durante a consulta médica, uma paciente com misofonia me contou que as 3 irmãs tinham o mesmo incômodo com sons. Para nossa surpresa, quando as contatamos para nossa pesquisa de 2015, elas também indicaram outros familiares. No total, obtivemos informações de 15 pessoas dessa família, distribuídos em 3 gerações,  que tinham sintomas parecidos de aversão a sons!

Vejam a árvore genealógica da família nas 3 gerações (quadrados = homens, círculos = mulheres, pretos = com msofonia, brancos = sem misofonia)

A idade atual dos familiares com Misofonia varia de 9 a 73 anos (média 38.3) e 10 são mulheres (66.6%).  Quase todos começaram os sintomas na infância ou na adolescência.

Então, ela é ou não é hereditária? Conhecer essa família nos ajudou muito a entender que a misofonia pode ser genética, sim, mas novas pesquisa são necessárias porque ainda não dá para descartar que ela pode ser “aprendida” pela convivência dos filhos com os pais afetados.

Portanto, precisamos prestar mais atenção aos jovens de nossas vidas, sejam eles nossos filhos, netos, sobrinhos ou alunos!

 

A Misofonia “rouba” a atenção seletiva

Já falamos que a Misofonia é a aversão a determinados sons de volume baixo e repetitivos.

Há anos nós nos perguntamos POR QUE esses sons baixos incomodam, e não os altos, como as músicas de shows e baladas, as buzinas do trânsito ou as vozes nas praças de alimentação?

Vários pacientes responderam que esses sons:

- parecem falta de educação, por isso eles nunca fariam isso: esse pensamento combina com a raiva sentida ao ouvir os sons de mastigar de boca aberta, de fazer barulho quando toma sopa, de vizinha andando de salto alto etc

- provocam nojo: isso combina especialmente com os sons de soar o nariz, tossir e pigarrear

- roubam a atenção quando eles precisam se concentrar: para checar isso, pesquisamos alguns voluntários em 2016/2017 para avaliar a atenção seletiva deles em silêncio e durante o som de mastigação de maçã. Participaram 40 pessoas (10 com Misofonia, 10 com Zumbido e 20 sem misofonia e sem zumbido). No teste de atenção feito no silêncio, os 3 grupos tiveram resultados semelhantes. No teste feito com a adição do som da mastigação, as pessoas com misofonia tiveram uma porcentagem de acertos bem menor do que as dos outros 2 grupos. Algumas delas até se sentiram mal, com taquicardia e sudorese ao ouvir o som.

Assim, concluímos que os motivos da seletividade dos sons que incomodam são variados e que existe um prejuízo importante da atenção em pessoas com misofonia quando esses sons aparecem.

Por isso, precisamos ter mais empatia com essas pessoas e monitorar os sons desnecessários que nós mesmos fazemos!

 

O que acontece nos ouvidos e no cérebro de quem tem Misofonia?

Todos os sons que nós ouvimos são conduzidos até o cérebro para serem analisados e entendidos. Eles passam por várias estações até chegarem no córtex auditivo, que é a região final desse caminho.

Como a Misofonia é um problema descoberto recentemente, várias pesquisas estão sendo feitas para mais descobertas. Por enquanto, sabe-se que nas pessoas com Misofonia, duas áreas cerebrais estão mais ativadas durante a passagem dos sons que são feitos com a boca, nariz, mãos e pés (listados no Post 1 desta série). São elas:

1 - o sistema límbido, que é o centro das emoções e fica entre o meio e a lateral do cérebro

2 - o córtex pré-frontal, que é o centro da atenção e fica na parte da frente do cérebro

Assim, essas conexões cerebrais super ativadas podem provocar o reflexo imediato da reação negativa forte e desproporcional com esses sons, além de fazer com que eles não consigam se concentrar naquilo que precisam fazer porque prestam mais atenção aos sons que são irrelevantes e não conseguem ignorá-los como as outras pessoas conseguem.

 

A Misofonia e as principais linhas de tratamento

Como já reforçamos, a Misofonia é um problema descoberto recentemente e muitas pesquisas ainda precisam ser feitas. Até o momento, as principais linhas de tratamento realizadas são:

1 - estimulação sonora, em geral com sons baixos, leves e estáveis que podem mudar aquela super ativação do centro das emoções (sistema límbico) e do centro da atenção (córtex pré-frontal), como explicado no Post 5/7.
 

2 - medicamentos: como a Misofonia faz parte da quadrilha do ouvido, nós, otorrinolaringologistas, estamos observando o efeito de alguns medicamentos que são usados para zumbido e hiperacusia, que são dois outros sintomas concomitantes que envolvem ouvidos e cérebro. Alguns psiquiatras usam medicamentos para os sintomas coadjuvantes como ansiedade, fobia e transtorno obsessivo-compulsivo.

3 - mudanças comportamentais: podem ser feitas por meio de terapia cognitiva comportamental, aliada ou não ao neurofeedback (técnica de treinamento e monitoração da atenção) e à meditação.

A Ciência e a prática clínica estão sempre avançando, por isso precisamos adotar as técnicas de tratamento que já estão disponíveis atualmente, mesmo que elas ainda não sejam capazes de melhorar 100% das pessoas. Tentar sempre vale a pena e é melhor do que não fazer nada, certo?! 

 

O que há de esperança para quem tem Misofonia?

Há anos nós estudamos pessoas com sintomas pouco valorizados pela Medicina, como Misofonia, Zumbido e Hiperacusia. Ver pessoas que sofrem e não sabem o que fazer nem onde procurar ajuda mexe com a gente! Por isso criamos algumas medidas que podem ser feitas por todos, independente de morar perto ou longe de um centro avançado.

Uma de nossas iniciativas foi o SOS Misofonia, que é uma maneira anônima, simples e elegante de avisar as pessoas ao seu redor que os sons que elas produzem podem ser irritantes. Quem envia o email fica anônimo, escolhe os sons que o incomodam e que gostaria que as pessoas soubessem. Quem recebe o email vai ler várias informações sobre misofonia, incluindo os sons que foram escolhidos por quem enviou. Veja o link http://misofonia.com.br/misofonia-2/ e use à vontade para ajudar as pessoas a entenderem melhor esse problema.

Também criamos o Novembro Laranja em 2006, que é uma campanha inicialmente direcionada apenas para o zumbido, mas que abraçou a Misofonia em 2017 para ajudar a divulgar essa quadrilha do ouvido!

 

Outras ações louváveis foram realizadas por pessoas que sofrem com Misofonia e estão ajudando milhares de pessoas. São elas: 

1 - o grupo Misofonia em Português que já conta com mais de 4000 pessoas;

2 - a recém criada Associação Virtual Brasileira de Misofonia, que também está empenhadíssima em divulgar o assunto e buscar soluções; e

3 - o Instituto Ganz Sanches criou o canal TV Misofonia.

Com o passar do tempo, temos certeza de que a Misofonia será um problema mais conhecido, mais investigado e tratado com mais sucesso. Que venha o futuro!

 
Sobre a especialista

Profa  Dra. Tanit Ganz Sanchez: Otorrinolaringologista com doutorado e livre-docência pela USP, Fundadora e Diretora do Instituto Ganz Sanchez, criadora da Campanha Nacional de Alerta ao Zumbido (Novembro Laranja), do Grupo de Apoio Nacional a pessoas com Zumbido, da TV Zumbido e do curso online ABC...z do Zumbido. Assumiu a missão de desvendar os mistérios do zumbido e é pioneira nas pesquisas no Brasil, sendo reconhecida por sua didática, objetividade e compartilhamento aberto de ideias. É especialista em Zumbido, Hiperacusia, Misofonia e Distúrbios do Sono.

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DEISE CAPECE . 15-08-2018 13:18hs

Sofri a minha vida inteira (tenho 52 anos) e tenho o rótulo de intolerante. Os piores barulhos são os de pessoas comendo, mas no ambiente de trabalho, teclado e canetas tiram minha concentração facilmente. O que mais me machuca é que eu tenho tanto amor e não consigo controlar a raiva que às vezes sinto. Não consigo fazer uma refeição com meu pai, que come de boca aberta e usa dentadura. Já fiz terapia, mas após um tempo os sintomas voltam. Estou cansada de usar fone e de me isolar. Hoje medito bastante e isso me alivia muito, mas tenho medo dos encontros familiares e queria não parecer que sou um monstro.