Jornal Rosa Choque
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Cuiabá - MT, 24-04-2019 às 22:25

História e metamorfoses

| Creditos: Shutterstock

Não sei se compartilham da mesma sensação, mas algo de novo e diferente predomina na atmosfera amorosa entre as pessoas e que se propaga com tal velocidade que parece invadir os pensamentos, opiniões, posicionamentos e conceitos.

A concepção de amor se transforma drasticamente e modifica os comportamentos sexuais e amorosos. Acontece que sinais claros destas mudanças se evidenciam e a sociedade insiste em não enxergar ou não aceitar, principalmente no que se refere a um sentimento tão cultuado, que possui pompas de intocável e imutável.

O amor fantasioso não possui a mesma concepção tradicionalista que permeou o imaginário dos amantes. O sentido e busca do amor não está mais pautada do conceito melódico do assim frustrador amor romântico. Baseado no prazer sexual, interesses individuais e uma realidade libertadora, o amor cede aos conceitos contemporâneos e solicita uma definição mais categórica para se manter forte. Não “se ama” alguém, mas se gosta, se admira, se fascina, se adora e por ai vai. O termo sugere uma gama de sentimentos e sensações que necessitam ser nomeados. De uma ideia muito ampla e dilatada para ideias mais coerentes, explicativos e viscerais.

O amor romântico é frustrador porque nutre em si expectativas e idealizações sobre a pessoa amada. Uma cultura que defende o amor romântico como a única e verdadeira forma de amor. Cultua-se a crença de exclusividade e possessividade, cuja unanimidade faz com credite ao amor romântico e o sistema mais propício para a constituição de relações amorosas e casamento.

Este tipo de sentimento é presunçoso e se alimenta de uma profunda sensação de solidão, alienação e frustração que as pessoas possuem pela incapacidade de construírem relações afetuosas sustentadas na realidade. Vive-se a sensação de amar o amor e a paixão e desta maneira, todo um ciclo viciante e repetitivo de buscar vivenciar esta sensação e não uma pessoa.         

O amor que sufoca, que aprisiona, que violenta é uma extensão do amor cortês, que localizamos facilmente literatura da Grécia antiga, no Império Romano, na antiga Pérsia, no Japão Feudal e nas canções poéticas dos trovadores. Histórias como de Tristão e Isolda e Romeu e Julieta consistiam no destemido cavalheiro que corteja sua amada, idolatrando sua imagem e a figura feminina. Enaltecido através da dificuldade em consolidar a união dos amantes, o amor cortês se fortalece através da tragédia, o suplício e o dramatismo que cerca o relacionamento. Cria-se, portanto, dois conceitos cruciais para o surgimento do amor romântico. O primeiro é que o amor é a sobrevivência de qualquer relação amorosa e o sentimento mais honrado. A segundo ideia é que se este sentimento é a dádiva e o bálsamo da vida deve-se obtê-lo a todo custo. Para isso, todos os esforços são necessários e sacrifícios são permitido

Este sentimento se disfarça de ‘amor incondicional’, e que na verdade está condicionado a uma simbiose que tenta diminuir o estado de abandono. Conceito irreal e efêmero, o amor romântico não deve ser confundido com romantismo.

Mandar flores, beijos ardentes, demonstração de carinho e afeto, gentileza fazem parte do romantismo, mas a ideia equivocada de dependência pelo outro e que cria inúmeros mitos como, que através do amor o casal deve viver uma única vida, que quem ama não tem o por que de apreciar outra pessoa, que o prazer deve ser restrito à esta relação dualista, distorce todo o intuito de viver ao lado de alguém sem obrigações, exigências, de forma livre e autônoma.

Amar não é benevolência e tampouco altruísmo. Não se faz favor a ninguém amando, assim como ninguém deve ser grato por ser amado, pois dessa forma, preciso pagar com juros. A propósito, a existência do amor esta condicionado enquanto a outra pessoa dá sentido à nossa vida.

Neste amor romântico a sensação de estar apaixonado é plena, mas a paixão é imediatista e possui como estopim a urgência. É como se precisássemos desesperadamente do outro para viver e é este estado de espelho que o casal vive. Uma solidão amorosa. Viver para o outro é o bastante.

Esta talvez seja de fato a mazela do amor romântico, a ferida de que se têm certeza de que aquela é a mais magnífica forma de amar e que até então fomos privado de viver algo intenso e maravilhoso. Isso é falacioso.

As pessoas se boicotam constantemente nas relações amorosas porque ficam inertes diante da ilusão da expectativa. Faz do outro a peça que faltava para se viver uma grande paixão, ao passo que, a peça que falta está em si mesmo. Por isso se atribui tudo ao outro e cabe a ele suprir as expectativas.

Acontece que a paixão pauta-se na realização imediata do desejo. O desejo é imediatista, mas não cria expectativas. Quer apenas ser saciado. Ele quer ser satisfeito, ter contato, consumir, devorar o outro e para tal, não é necessário amar. O desejo desnuda a paixão naquilo que ela tinha como alicerce, o proibido. Amor e sexo são aspectos bem diferentes. Se existe sexo sem amor, o contrário também é muito verdade.

 Alguma coisa está acontecendo com a maneira de nos relacionarmos e de enxergar sexo e o amor. Fato. A pluralidade de se amar é gigantesca. Conhecer os mecanismos do amor romântico nos dá a possibilidade de mudarmos mentalidades e comportamentos. Passamos do campo inconsciente para conscientização de que podemos agir melhor e atingirmos um grau de felicidade que não envolva escravidões. A relação amorosa pode e deve ser livre, sem pressões, questionamentos e dúvidas. O casal deve prezar pelo respeito e as individualidades do companheiro. E esta talvez seja a dialética das relações. O respeito pelo outro deve ser maior do que o próprio amor.

Breno Rosostolato é psicólogo clínico e professor da Faculdade Santa Marcelina (FASM).

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